ENEM 2020 - O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira

Enviada em 28/05/2021

Em seu livro “As Obras do Amor”, o filósofo Kierkegaard denuncia que a sociedade facilmente reconhece o potencial destrutivo do fogo ao ver a fumaça, embora negligencie outros riscos perigosos. De modo semelhante, os brasileiros sem dificuldade entendem que uma doença psicológica pode gerar tragédias, tal como o suicídio. Contudo, ainda persiste a dificuldade de reconhecer que estigmatizar quem padece desses males é tão grave quanto. Isso acontece porque falta empatia e reconhecimento de que todos podem sofrer o mesmo problema. Assim, é preciso seguir a lição dos bombeiros e atacar as causas que geram o preconceito: a negligência governamental e as instituições de ensino com viés mercadológico.

Nesse contexto, se a inação do Estado se mostra incapaz de estimular a solidariedade com os que sofrem, logo, o desprezo aos que possuem doenças psicológicas se multiplica. Essa falta de ação dos governantes é verdadeira, dado que preferem realizar atos ilícitos e construir grandes obras (que podem gerar votos e capital político). Como consequência, uma vez que os poderosos não se mostram exemplos, toda a população do país não percebe a urgência ética de cuidar e respeitar os que enfrentam dificuldades mentais. Portanto, a realidade ensina que desrespeitar e ironizar os que travam batalhas internas pode estimular terríveis massacres, como o horrendo episódio de “bullying” e assassinatos na escola pública de Realengo comprova.

Ademais, se é fato que as escolas não se mostram capazes de desestimular os estigmas contra pessoas que necessitam de cuidado apropriado, então, o preconceito permanece. Essa falha escolar se confirma, uma vez que a maior parte de seus esforços se dirigem ao mercado de trabalho e exames de vestibular. Desse modo, o acolhimento de estudantes que sofrem depressão, autismo, bipolaridade ou doenças similares é prejudicado. Logo, a rede escolar se configura promotora da persistência desses preconceitos, já que incentiva mais o individualismo e competição do que a ética do acolhimento dos necessitados.

Portanto, cabe ao Governo criar um “Plano Nacional Coexista”, por meio da formulação de um decreto federativo (com a contribuição de psiquiatras e psicólogos), com o objetivo de estimular a empatia, paciência e diminuição do preconceito contra os que padecem de problemas mentais. Além disso, as escolas devem implementar uma rádio escolar, por intermédio da união de alunos e professores (para divulgar conteúdos éticos que prezem pelo bem-estar psicossocial de todos), a fim de evitar conflitos sociais. Assim, a sociedade brasileira será estimulada a combater o estigma que pode gerar consequências tão terríveis como pode ser o fogo.