ENEM 2020 - O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira
Enviada em 29/09/2021
O ser em destaque na obra “O Grito”, do artista norueguês Edvar Munch, parece experimentar extremo desconforto e pânico diante do desconhecido. Essa representação vai de encontro à ausência de sentimento de estranhamento social perante à estigmas associados às doenças mentais no Brasil, já que contrário ao personagem, a sociedade não mais se espanta, sendo indiferente ou mesmo se nega a reconhecer a gravidade dessa problemática. Nesse sentido entre os fatores que contribuem para aprofundar tal quadro destacam-se a postura hegemônica da mídia, e a falha educacional brasileira.
Primeiramente, é fundamental reconhecer que a manipulação midiática gear a permanência de preconceito social à problemas mentais. Isso ocorre porque os meios de comunicação ao produzirem conteúdos de acordo com o padrão de gosto do público, para direcioná-lo, torna-lo homogêneo, e, logo, facilmente atingível, para obter maior lucro, acabam invisibilizando temas que abordem sobre saúde mental e emoções, ou abordando-os de forma superficial. Com isso, contribuem na alienação do tecido social, ao não fornecerem informações que eliminem estereótipos relacionados a assuntos que abordem emoções e sentimentos humanos ou doenças psiquiátricas, fato que favorece ao não engajamento da população contra a perpetuação desse panorama, e acaba legitimando à marginalização desse grupo, mesmo o Brasil sendo o país da América Latina com mais depressivos, de acordo com a OMS. Esse cenário é semelhante ao que defendeu o sociólogo Zygmunt Baumam, para quem “Na era da informação a invisibilidade é equivalente à morte”, visto que a falta de matéria e conteúdo que informe os brasileiros sobre doenças mentais contribui na estigmatização e morte social dos sujeitos que sofrem com elas.
Além disso, é importante observar que o sistema de ensino falho promove um imaginário deturpado sobre problemas psiquiátricos. Isso advém de que o ensino contemporâneo foi reduzido à formação voltada para o mercado de trabalho, sendo conteudista e tecnicista, não desenvolvendo habilidades emocionais nos indivíduos para relacionarem-se e lidarem com o cotidiano. Desse modo, ao negligenciarem debates que desconstruam estigmas sobre pessoas que tenham alguma enfermidade mental e ao não desenvolverem em sala temas sobre Inteligência Emocional, acarreta na rotulação de sujeitos que manifestem alguma alteração exacerbada no estado emocional, como “loucos”, pois não compreendem as próprias emoções nem as dos outros. Tal afirmação está em desacordo ao pensamento do político Nelsom Mandela, que disse: “A educação é a arma mais poderosa que se pode usar para mudar o mundo”, uma vez que a falta de atuação das escolas não contribui na dissolução do preconceito social diante de questões emocionais, rompendo com a harmonia e dignidade dos seres humanos que precisem de ajuda para enfrentar problemas psiquiátricos.
Fica claro, portanto, que medidas devem ser realizadas para mitigar essa problemática. Assim, é necessário que o Governo Federal, por meio de um Decreto Federativo, crie um Plano Nacional de Combate à Estigmas Sobre Doenças Mentais, com a finalidade de romper com esse cenário de violação do bem-estar e discriminação sobre sujeitos que estão passando por dificuldades emocionais e psíquicas. Desse modo, esse Plano deve atuar na regulamentação da mídia, para que garanta a produção e divulgação constante de conteúdos que abordem sobre emoções e formas de lidar com elas, em programação aberta. Ademais, o Plano irá estabelecer, mediante matérias de ética, cidadania e biologia da mente, no ensino médio, com o objetivo de promover o pensamento crítico e inteligência emocional do estudante. Só assim, a população se espantará diante de fatos preconceituosos deturpados sobre depressão e ansiedade, semelhante ao personagem de Munch, contribuindo para o rompimento da marginalização das pessoas que sofrem enfermidades psíquicas, deixando de ser um tema tabu.