ENEM 2020 - O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira

Enviada em 22/06/2021

A narrativa grega “O mito de Procustos” retrata, de maneira distópica, que um grupo de salteadores, liderado por Procustos, interpela viajantes na cidade de Atenas e os obriga a deitarem na “cama do castigo”, a qual deveria ser do exato tamanho do indivíduo e, caso ele não se adequasse a ela, poderia ter seus membros cortados ou esticados. Nessa conjuntura, observa-se que, hodiernamente, o leito mostrado na obra é semelhante ao imposto na coletividade, visto que a saúde mental é enaltecida socialmente e mazelas que divirjam desse padrão são associadas a estigmas que, em razão do descaso estatal e da conivência da população com esse revés consolidam um grave entrave à nação .            Em primeira análise, observa-se que a ineficiência, ou mesmo inexistência, de políticas públicas voltadas à saúde mental como um caso  de saúde pública é um dos fatores que contribuem para que ela seja vista com indiferença. Nesse viés, o psiquiatra Augusto Cury argumenta que o tratamento atribuído a problemas mentais não são aplicados sob um olhar que, de fato, veja a condição psicológica do indivíduo e sim com um espectro que o trata de forma rotulada e sem especificação própria. Assim, esse panorama dá margem a personificação de que doenças  mentais é algo de mínima importância e põe em evidência a ausência de engajamento de órgãos e sistemas públicos que alterem essa realidade e dê a visibilidade necessária ao tema.

Outrossim, práticas estatais que deixam a desejar encontram respaldo na estereotipização que a sociedade cria frente a patologias mentais. Concomitante a isso há, nesse corpo social, o que Zygmunt Bauman nomeou de “ Modernidade líquida” em que  a sociedade pós-moderna é caracterizada pela queda das atitudes éticas e pela fluidez dos valores. Desse modo, vê-se a existência de pouca empatia da população que não  busca  entender   o problema e o delimita a uma esfera de ridicularização e tornam, assim, exíguas as buscas de tratamento pelo indivíduo pelo temor de uma possível segregação social.

Portanto, o Ministério da Saúde deve criar um programa de atenção especial ao cuidado com doenças mentais que, por meio de postos e unidades básicas de saúde, disponibilize psicólogos e profissionais de saúde especializados para prestar adequados serviços de apoio a doenças mentais. Além disso, deverá promover propagandas na mídia televisiva sobre os fatores que podem causar doenças mentais, visando desconstruir estigmas errôneos socioculturalmente e desfazer a atual “ cama do castigo” feita pelo preconceito.