ENEM 2020 - O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira
Enviada em 08/09/2021
No século XIX, a palavra “histérica” passou a ser uma forma de taxar mulheres que apresentassem sintomas de doenças psicológicas ou que fossem difíceis de lidar. Nesse contexto, ainda podemos observar atualmente o amplo uso de termos capacitistas, como “retardado”, que, apesar de realmente denominarem determinados transtornos psicossomáticos, são aplicados em forma de ofensas. Tal quadro ocorre devido aos duradouros estigmas sociais associados às doenças mentais que, em decorrência da falta de atuação estatal, se perpetuam em uma sociedade ignorante.
Sob tal viés, cabe notar, primeiramente, que o desinteresse do Estado em promover mudanças nesses quadro é a força motriz das adversidades relacionadas a essa problemática. Conforme a Constituição Federal de 1988, é garantido ao cidadão o direito à saúde e o acesso à ações e à serviços para sua promoção, proteção e recuperação. No entanto, para que a União cumpra plenamente com esse dever, a inclusão social desses indivíduos portadores de doenças psicológicas deve ser garantida, de forma que esses possam ser acolhidos nos locais de convívio e que tenham acesso a ambientes e a profissionais adaptados às suas necessidades. Dessa maneira, também é responsabilidade do governo proporcionar condições dignas de coexistência e desenvolvimento e não somente promover o bem-estar por meio de acesso ao sistema de saúde, como ocorre atualmente.
Além disso, a desinformação resultante da omissão governamental, anormaliza a condição dessas pessoas. Isso porque, a falta de conhecimento apropriado alimenta preconceitos internalizados e resulta em ofensas e na intolerância quanto as suas necessidades. Tal comportamento é ilustrado de forma alegórica nos livros da saga Percy Jackson, do autor Rick Riordan, no qual o personagem principal, portador de TDAH, é visto como problemático e preguiçoso por seu padrasto. Assim, esses são taxados como “defeituosos” e não como cidadãos normais, gerando uma agressiva estranheza por parte dos que desconhecem essas condições. Dessa forma, os estigmas associados à essas doenças são alimentados pela falta familiaridade resultante da ausência de adequadas políticas de inclusão.
Portanto, podemos concluir que a raiz dessa situação é o descaso governamental, que se ramifica em diversas tribulações que agravam o cenário. Por esse motivo, cabe ao Ministério da Saúde, em parceria com o Ministério da Educação e com a imprensa, incentivar a normalização dessa condição por meio de projetos de inclusão em escolas e nos veículos midiáticos, promovendo o conhecimento e proporcionando a adaptação dos ambientes sociais às necessidades desses indivíduos, permitindo-os gozar de seus direitos e a viver de forma digna. Somente assim, as doenças psicológicas deixarão de ser vistas como anormais e poderão passar a ter o devido respeito e atenção que demandam.