ENEM 2020 - O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira

Enviada em 27/09/2021

Na tragédia grega Ifigênia em Aulis, de Eurípides, a princesa Ifigênia, diante de uma sociedade que valoriza a fama do nome acima de tudo, consente ao próprio sacrifício. Assim, o sofrimento físico e psicológico de uma jovem, mascarado de êxito, é tomado como paradigma comportamental. Infelizmente, a sociedade brasileira não distoa muito da poesia antiga, pois, assim como na tragédia, o sofrimento em nome do sucesso é visto como positivo, de modo que as consequências pessoais desse tipo de comportamento, como doenças mentais daí advindas, acabam sendo estigmatizadas, dando aval, portanto, ao martírio contínuo de diversas pessoas.

Primeiramente, é preciso aludir ao vínculo direto entre a pressão socialmente imposta pela busca do sucesso e o desenvolvimento de transtornos mentais. Nessa perspectiva, observe-se o filme estadunidense Whisplash, de 2014, no qual é retratada a história de Fletcher, um rígido professor que, sob a excusa de estar atrás da perfeição, inflige dor física e psicológica em seus alunos. Nesse drama, Shawn, antigo aluno de Fletcher, comete suicídio, em razão de transtorno depressivo e ansiedade que desenvolveu durante seu período com o referido professor. O filme demonstra, portanto, que objetivos socialmente aceitos podem resultar em tragédias evitáveis.

Por conseguinte, pode-se verificar que o efeito desse tipo de método, geralmente aplicado com o aval da sociedade, acaba sendo o contrário do esperado, pois, ao invés do sucesso, provoca a incapacitação, mas que muitas vezes é interpretada como falta de comprometimento ou qualquer outro defeito individual que sirva para retirar a carga de culpa do corpo social. Ainda nessa seara, segundo dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde, em 2017, o Brasil era o país com o maior número de pessoas depressivas em toda a América Latina, em um mundo que perdeu cerca de um trilhão de dólares pelas consequências dos transtornos mentais. Logo, além de estarem diretamente vinculadas às relações e padrões sociais majoritariamente difundidos, essas doenças são, também, um entrave ao próprio desenvolvimento das sociedades.

Em suma, conclui-se que a banalização do sofrimento e a consequente estigmatização das doenças mentais constituem um problema relevante da sociedade brasileira contemporânea, que deve ser combatido por meio da ação conjunta do Ministério da Saúde e do Congresso Nacional, para elaborar, aprovar e implementar um projeto de lei que obrigue e oriente a criação de campanhas conscientizadoras e apoio especializado preventivo na elaboração dos planos de ação de empresas e escolas, evitando, assim, práticas que coadunem com as causas e consequências da problemática aqui enfrentada. Objetivando, assim, frear a permanência da estigmatização das doenças mentais no Brasil.