ENEM 2020 - O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira
Enviada em 31/10/2021
Na obra “Utopia”, do escritor inglês Thomas More, é retratado uma sociedade perfeita, na qual o corpo social encontra-se livre de conflitos e problemas. No entanto, o que se observa na realidade brasileira atual é o oposto do que o autor prega, uma vez que o estigma associado às doenças mentais é um grave obstáculo aos planos de More, pelo seu caráter excludente. Esse cenário antagônico é fruto tanto da inépcia estatal, quanto da insensibilidade dominante. Diante disso, é fundamental a discussão desses aspectos, a fim de assegurar a plena harmonia social.
A princípio, é imperioso anotar que a indiligência governamental potencializa os preconceitos contra aqueles abalados em sua saúde mental. Nesse sentido, pela teoria contratualista, os indivíduos abrem mão de sua plena liberdade, submetendo-se as leis do Estado, para que esse, em nome da coletividade, promova o bem comum. Entretanto, a política – responsável pela condução daquele ente, para Aristóteles – descuida da população em favor da austeridade fiscal. Em consequência, aloca-se poucos recursos para cuidar dos enfermos psiquiátricos, ainda que, por isso, 12 milhões de brasileiros, que sofrem de depressão – dados da Organização Mundial da Saúde – sejam desassistidos. Assim, sem tratamento adequado, esses não superam suas mazelas e a discriminação do seu infortúnio continua.
Outrossim, é igualmente relevante apontar a insensibilidade reinante como impulsionadora dos estereótipos negativos dos distúrbios psiquiátricos. Nessa questão, Michel Focault afirmava que se criaram os manicômios para encarcerar os insanos, a fim de excluir essas pessoas indesejadas da comunidade. Porém, dada a profunda falta de empatia da atualidade – na lição de Zygmunt Bauman em “Modernidade líquida” –, essa prática incorporou-se ao imaginário como tratamento necessário a essas doenças. Com isso, sem empatia, ninguém se importa com os problemas alheios e, diante do distúrbio mental, recorre-se à minimização do revés ou ao senso comum, que indica o seu isolamento. Logo, os enredados nessa situação encontram um ambiente estéril de solidariedade e, não raro, serão considerados desajustados e merecedores da exclusão social, que agrava sua condição.
Urge, portanto, conter a deletéria rotulação dos acometidos por doenças mentais. Dessarte, faz-se mister que o Ministério da Saúde institua programa multidisciplinar de tratamento psiquiátrico – denominado “Saúde mental sem estigmas” – com a finalidade de prover tratamento ambulatorial e humanizado aos problemas de fundo psicológico e mental, além de campanhas midiáticas de esclarecimento à população dessas questões, visando remover estereótipos. Tal iniciativa seria feita por meio de convênios com estados e municípios para repasse de verbas para atendimento da finalidade. Dessa forma, a utopia vislumbrada por More seria alcançada.