ENEM 2020 - O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira

Enviada em 15/11/2021

Um dos maiores escritores do Brasil, Lima Barreto retratou a dor e aflição de ter que passar por um tratamento psicológico no país. Na obra “diário de um hospício e o cemitério dos vivos”, o autor narra fatos que escancaram o aspecto sub humano dos manicômios do século XX, quadro que reflete diretamente no estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira atual, e que revela duas das principais raízes para a perpetuação deste estigma: a construção histórica da figura do louco e a dificuldade de obter assistência médica psicológica.

A priori, cabe destacar que a construção histórica do tratamento psicológico no Brasil está associada de maneira pejorativa a figura do louco. Em função disso, há sempre uma barreira a ser superada antes de procurar assistência médica, permitindo a evolução do problema, razão pela qual o país apresenta elevadas taxas de doenças psicológicas, sendo o que tem o mais alto índice de depressão na América Latina, segundo pesquisa realizada em 2017 pela Organização Mundial da Saúde. Ademais, é importante salientar que a dificuldade em buscar assistência psicológica fica ainda mais evidente diante de grupos vulneráveis, que sofrem com o acúmulo de estigmas, problema recorrente frente às desigualdades do Brasil.

Outro ponto a se destacar diz respeito à falta de estrutura disponível na rede pública de saúde para o tratamento psicológico, dificultando o acesso prévio e usual da população e, consequentemente, mantendo o estigma. Se por um lado, a criação dos Centros de Assistência Psicossocial apresentaram um avanço na assistência psicológica gratuita, por outro, revela a insuficiência de recursos destinados a esse tipo de especialidade, seja pelos poucos espaços disponíveis, seja pela falta de recurso destinado à publicidade dos serviços. Neste sentido, a população se sente cada vez mais afastada do tratamento médico psicológico adequado, deixando de ver a saúde mental como algo comum a todos.

Por isso, a fim de quebrar o estigma associado às doenças mentais, é fundamental que o Estado, por meio do Ministério da Saúde, promova uma campanha nacional de conscientização da importância da saúde mental, no intuito de alertar o público geral dos seus benefícios.  Ainda, mostra-se urgente que os entes federais ampliem a rede de assistência à saúde mental no Sistema Único de Saúde - SUS, com o objetivo de facilitar o acesso da população a um serviço público e de qualidade. Estas medidas, além de seu aspecto prático, tornam-se primordiais na quebra dos estigmas, pois só a partir do conhecimento e da familiaridade será possível avançarmos diante do preconceito.