ENEM 2020 - O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira

Enviada em 29/03/2022

Erradicar o estigma associado às doenças mentais no Brasil deveria ser um propó-sito comum aos cidadãos, o qual é essencial à transformação social e à manuten-ção do bem-estar coletivo. Contudo, os instrumentos de dominação simbolicamen-te constituídos, por meio da perpetuação da ilusória saúde mental generalizada, li-mitam o entendimento acerca dos transtornos psíquicos. Esse quadro preconcei-tuoso é intensificado pela educação fragmentada, que atrofia saberes sociais e im-

pede a transformação de paradigmas de inferiorização dos doentes mentais.

A princípio, é fundamental compreender como o perverso símbolo de mente sau-dável estabelece distinções preconceituosas com os transtornos psicológicos. Con-

forme denuncia o sociólogo frânces Pierre Bordieu, o poder simbólico é uma auto-

ridade invisível que dispõe de instrumentos de dominação reafirmadores e repro-dutores de paradigmas. Nesse sentido, a suposta hegemonia dos indivíduos sem doenças psíquicas se tornou símbolo de saúde da mente, estabelecendo propósi-tos cruéis para alcançar essa distinção fictícia que estigmatiza quem compreende e trata seus transtornos mentais. Esse modelo distancia-se de tal forma da realidade

que quase 12 milhões de brasileiros vivem com depressão, segundo a OMS.

Além dessa influência simbólica, vale ressaltar o papel da escola na fragmentação do conhecimento associado às doenças mentais. De acordo com Edgar Morin, a educação fraciona os saberes, de maneira a reduzir a complexidade e diversidade do conhecimento humano, priorizando áreas de estudo e atrofiando saberes cida-dãos. Nessa acepção, os indivíduos, reféns dessa fissura de saberes, são incapaci-

tados de compreender e de transformar símbolos de saúde mental, formando pre-conceitos estruturais. Tal fragmentação da educação está tão estabelecida que o bullying naturaliza a utilização de termos pejorativos sobre as doenças mentais.

Portanto, a fim de reverter a estigmatização dos transtornos mentais, o sistema educacional, que detém o poder de formar cidadãos ativos nas transformações so-ciais, deve promover a desconstrução dos símbolos de distinção relativos às doen-ças mentais, por meio da implementação de uma educação integral, que discuta a complexidade e a diversidade humana. Tal formação cidadã levaria ao desenvolvi-mento de saberes direcionados a interromper os instrumentos de dominação.