ENEM 2020 - O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira
Enviada em 25/06/2022
Brás Cubas, o defunto-autor de Machado de Assis, diz em “Memórias Póstumas” que não teve filhos e não transmitiu a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. Talvez hoje ele percebesse acertada sua decisão: a postura de muitos brasileiros com relação ao elevado número populacional afetado por doenças psiquiátricas é uma das faces mais perversas de uma sociedade em desenvolvimento. Com isso, surge a problemática do preconceito que persiste intrinsecamente ligado à realidade do país, seja pela insuficiência estatal, seja pela lenta mudança de mentalidade social.
Nessa perspectiva, a ingerência governamental prevê uma educação que limita a instrução social, de modo que não esteja apta para lidar com indivíduos que possuam transtornos mentais, muito menos, propor caminhos para inseri-los na coletividade. Assim, encontra forças no ensaio “Pedagogia do Oprimido”, do pedagogo brasileiro Paulo Freire, o qual caracteriza o ambiente escolar como uma ferramenta de opressão e superficialidade, sendo estas vivenciadas por Brás Cubas. Logo, percebe-se que as escolas não habilitam o sujeito para a convivência em sociedade, fato observável com os elevados índices de estigmas psicológicos.
Além disso, é inegável como a manipulação midiática alicerça a antipatia para aqueles que possuem problemas mentais, pois, os veículos de comunicação valorizam uma perspectiva lucrativa. Dessa maneira, a análise da conjuntura precária, que cerca o ladeamento da agrura, é silenciada na mídia por não ser um assunto atrativo. “Na era da informação, a invisibilidade é equivalente à morte”, esta frase de Zigmunt Bauman explicita que, a pouca visibilidade é crucial na perpetuação do contemporâneo despotismo constatado por Paulo Freire.
Infere-se, portanto, um imbróglio no cenário nacional. Nesse prisma, o método de resolver tal atrocidade, em qualquer Estado da Federação, é por meio das verbas da União. Por conseguinte, o Poder Executivo deve efetuar uma reforma no ensino escolar, a qual instruirá a contemporânea juventude sobre como lidar com indivíduos com doenças psíquicas. Ademais, o Poder Estatal deve realizar campanhas com os veículos de imprensa, a fim de conscientizar a importância do tema. Logo, será possível a extinção de um legado histórico miserável.