ENEM 2020 (Reaplicação) - A falta de empatia nas relações sociais no Brasil

Enviada em 27/02/2021

No poema O Bicho de Manuel Bandeira, o eu lírico demonstra - se espantado ao se deparar com um homem em meio a restos - em uma situação deplorável -, a qual nem um bicho merecia estar. Essa obra modernista explora um ato cada vez mais escasso nas relações sociais brasileiras: e empatia. Assim, faz necessário discutir as causas desse problema, seja pelo âmbito da construção educacional dos indivíduos - que negligencia o ensino de valores éticos -, seja pela lógica da competição capitalista - que cega as pessoas de atuarem de maneira empática.

Diante do exposto, convém salientar que a formação escolar atual, centrada, exclusivamente, em conhecimento técnico - e não cívico - moral, contribui para a ausência de compaixão nas atitudes cotidianas. A esse respeito, o educador Paulo Freire defendeu em suas obras que o papel da escola seria construir indivíduos críticos e autômos, capazes de se preocuparem consigo, mas, sobretudo, com os outros. Entretanto, a ideia do professor está cada vez mais distante da prática, haja vista o ensino formal ter direcionado o seu empenho para a construção de habilidades e competências técnicas, voltados exclusivamentes para a formação profissional. Por consequência, ocorre uma lacuna na apresentação de determinados valores, como a cordialidade e a empatia, os quais são essenciais para todas as áreas da vida, inclusive, a profissional. Então, é paradoxal a nação brasileira requisitar esses princípios e não ter na escola uma grande aliada para o desenvolvimento desses comportamentos.

Além disso, ressalta - se que, na vida adulta, as cobranças produtivas capitalistas e pessoais acabam por sublimar, ainda mais, os possíveis sentimentos empáticos no dia a dia das pessoas. Sob essa ótica, o filósofo coreano Byung Chun Han indica, na obra Sociedade do Cansaço, que a coletividade encontra - se cada vez mais preocupada em almejar os valores que o sistema produtivo as impõem, e isso as cegam perante a outros, como a empatia. Dessa forma, constroi - se, na atualidade, um ambiente hóstil, principalmente, com o semelhante, o qual, muitas vezes, é visto como concorrente - ou ameaça - e esse fator não só impede atos de empatia nas relações sociais, como também incita ódio e violência. Logo, a mudança dessa lógica requer a desconstrução dessa prática competitiva, tão egocêntrica e violenta.

Compreende - se, portanto, que para incitar atos empáticos no Brasil, o Ministério da Educação deve, por meio de portaria, instaurar um Plano Nacional de Estímulo à Empatia nas Escolas, que deve instruir pais e alunos de maneira lúdica - com palestras, rodas de conversa e apresentações teatrais -, a fim de ensinar e perpetuar comportamentos de compaixão em seus participantes. É notório também que se difunda campanhas publicitárias nos meios de comunicação no intuito de desconstruir valores competitivos nos adultos. Somente assim haverá a difusão do ato do lírico do poema O Bicho.