ENEM 2020 (Reaplicação) - A falta de empatia nas relações sociais no Brasil

Enviada em 04/03/2021

Durante a Segunda Guerra Mundial, milhares de judeus e demais perseguidos pelo nazismo foram mortos, enquanto os soldados que executam barbaridades no Holocausto orgulhavam-se de seus feitos, Nesse contexto, era evidente a falta de empatia entre parcelas distintas da sociedade, uma vez que um lado possuía tamanha insensibilidade em relação ao outro. Hodiernamente, a incapacidade de se colocar no lugar do outro ainda é uma realidade que permeia as interações sociais no Brasil. Tal cenário ocorre tanto pelas raízes históricas de nossa formação como uma sociedade, quanto pelo caráter distanciador e superficial das relações modernas.

Em primeiro lugar, é necessário entender que a falta de empatia é oriunda de nossa constituição enquanto sociedade. Assim, desde a colonização do Brasil pelos europeus, na qual os indígenas eram tidos como não humanos, já houve o início de uma realidade distante das preocupações coletivas. Além disso, a escravidão corroborou para o legado não harmônico da população brasileira, que persiste até os dias de hoje. Em contrapartida, as escolas, enquanto espaços educadores, não parecem ter conseguido modificar a situação instituída, pois tais instituições têm um caráter muito técnico e, portanto, distante das implicações com as relações humanas. Sendo assim, o indivíduo, ao concluir sua formação, não está apto para as relações sociais e, segundo a escritora Carla Akotirene, está sujeito à influência da interseccionalidade, na qual uma pessoa enxerga a outra de modo negativo a partir de uma soma de parâmetros, como o gênero, raça e religião, por exemplo.

É preciso destacar também que a modernidade tem modificado as relações sociais de modo a desumanizar os indivíduos. Dessa forma, a modernidade líquida, defendida por alguns pensadores, é caracterizada por relações superficiais e pelo distanciamento das pessoas, o que é contrário à condição de empatia. É comum, por exemplo, a existência de aplicativos como o Tinder, no qual os usuários enxergam uns aos outros, com base unicamente em fotos e informações de perfil, sem um aprofundamento de suas essências. De modo mais grave, entretanto, há um perigo maior, que é o acontecimento de crimes de ódio em razão da falta de pessoas empáticas na atualidade. Com isso, em 2018, houve o registro de feminicídio em todos os estados do Brasil, além da ocorrência de crimes de raça ou orientação sexual, segundo o Mapa do Ódio. Nesse contexto, é evidente a concretização da banalidade do mal, teorizada por Hanna Arendt, segundo a qual o avanço da sociedade se daria com a normalização da violência.

Em face da grave problemática abordada, medidas tornam-se necessárias. Destarte, a Escola, enquanto agente formador do ser humano e detentora de influência sobre ele, deve conscientizar os estudantes e suas famílias à respeito do exercício da empatia nas relações sociais cotidianas, por meio de palestras destinadas ao corpo escolar e também à comunidade local, sendo ministradas por psicólogos e professores de sociologia, no intuito de promover uma evolução coletiva das interações interpessoais. Além disso, a mídia pode realizar campanhas televisas e na internet com relação à participação humana em problemas ambientais, crimes diversos e demais problemas, em face da ausência de empatia. Para isso, deve haver o uso de depoimento de pessoas influentes, com a finalidade de alertar sobre o caráter multifatorial de mazelas contemporâneas, para as quais acredita-se que a escassez de atitude empática não tem uma parcela de culpa.