ENEM 2020 (Reaplicação) - A falta de empatia nas relações sociais no Brasil

Enviada em 07/03/2021

Num sistema capitalista, para que uma parcela da população seja rica, outra tem de ser pobre. Assim, nota-se que o individualismo é um valor intrínseco a esse sistema. Porém, este traço transcende as relações econômicas e transborda para as interpessoais. Ademais, num mundo amplamente conectado pela internet, este pensamento nunca foi tão divulgado e facilmente acessado. Desse modo, pode-se depreender que a falta de empatia nas relações sociais no Brasil se deve ao individualismo, que é agravado pela despersonificação dos diferentes e pelas notícias falsas, métodos utilizados para criar narrativas de nós (um grupo) contra eles (outro grupo).

Por exemplo, após o ataque às torres gêmeas em setembro de 2001, o governo estadunidense passou a retratar muçulmanos como potenciais terroristas e utilizou do medo da população de que um novo ataque acontecesse para executar diversas invasões a países do Oriente Médio, resultando na morte de vários civis inocentes. Nesse contexto, a ação de um grupo de extremistas foi utilizada para despersonificar e classificar todo um grupo religioso como perigoso. Com efeito, a falta de empatia – consequência do individualismo da dicotomia “nós” (Estados Unidos) contra “eles” (árabes) – cegou grande parte da população para as atrocidades cometidas pelo governo em nome de sua proteção.

Ainda, com o advento das redes de comunicação e a facilidade nunca antes vista de se propagar ideias, as notícias falsas são protagonistas na sociedade, principalmente desde a eleição de Jair Bolsonaro, em que a antagonização de seu adversário, Fernando Haddad, e de seus apoiadores. A título de exemplo, a divulgação de uma imagem falsa que colocava o homem que atacou o então candidato Bolsonaro com uma faca ao lado de Lula em uma manifestação fez com que diversos apoiadores do atual presidente associassem Haddad e seus apoiadores a apologistas da violência. Novamente, o individualismo da oposição do “nós” (apoiadores de um) contra “eles” (apoiadores do outro), dessa vez alimentada pelas notícias falsas, serviu para dividir o país e mitigar ainda mais o exercício da empatia.

Em suma, nota-se que notícias falsas e a despersonificação dos diferentes agravam o individualismo, raiz da falta de empatia no Brasil. Nessa conjuntura, sugere-se o incentivo à maior discussão sobre o impacto disso e suas causas em novelas e séries de canais abertos de televisão, por meio de parceiras público-privadas entre as emissoras nacionais e o Ministério da Cultura, com fomento da Agência Nacional do Cinema, a fim de que a representação artística possa ajudar a população a se colocar no lugar do outro e estimular o respeito às diferentes realidades, subvertendo o antagonismo “nós contra eles” para um único coletivo, “todos nós”. Com essa medida, a sociedade poderá caminhar para um maior exercício da empatia.