ENEM 2020 (Reaplicação) - A falta de empatia nas relações sociais no Brasil

Enviada em 31/03/2021

Na antiga Esparta, os indivíduos nascidos portadores de alguma doença eram estigmatizados e assassinados pelos guerreiros espartanos, que não os identificavam como semelhantes. De forma análoga, na contemporaneidade, persiste, no Brasil, a falta de empatia nas relações sociais. Nesse sentido, a segregação de pessoas por grupos sociais e culturais, aliada à criação de padrões ideais de indivíduos pela mídia, impulsiona essa problemática. Assim, são prementes discussões acerca dos efeitos da ausência de atitudes empáticas, de modo a promover uma convivência mais fraterna no país.

A princípio, vale ressaltar que a criação de grupos restritos a determinadas convenções, embora pareça promover a inclusão, mitiga a empatia. Nesse contexto, segundo o historiador Yuval Noah Harari, as religiões e o nacionalismo exercem um forte papel na criação de um sentimento de cooperação e união entre as pessoas de um mesmo grupo, pois elas se enxergam como semelhantes. Fora das páginas literárias, entretanto, no Brasil, a existência de diferentes grupos sociais e culturais dá margem para a formação de diferentes consciências individuais, representadas por membros que se mostram indiferentes ao bem-estar daqueles que são tidos como diferentes. Desse modo, é notória a individualização e a ausência de fraternidade entre os cidadãos no país, catalisadores para a desarmonia e para o preconceito entre indivíduos de diferentes características.

Outrossim, a caracterização do indivíduo baseada em padrões de beleza, consumo e conduta segregam ainda mais a coletividade em castas individualizadas. Sob esse prisma, o filósofo Zygmunt Bauman revela que o sentimento coletivo dominante é que se deve viver o momento presente e exclusivamente para si. Partindo dessa premissa, é evidente que o individualismo exaltado e a depreciação do diferente são nocivos à noção de bem-estar coletivo, pois, quando uma sociedade não valoriza a diversidade, abrem-se diversos caminhos para a marginalização e depreciação do outro. Posto isso, exemplos como o elevado número de casos de intolerância religiosa e discriminação racial, relatados pelo Instituto Ipsos, somado com a desassistência às classes sociais mais pobres, caracterizam a infame apatia social dos brasileiros a eles próprios.

Infere-se, portanto, que a segregação e a criação de padrões midiáticos contribuem para a falta de empatia nas relações. Diante disso, é basilar que as escolas adotem posturas voltadas não somente para o desenvolvimento da educação acadêmica, mas também para o da humanização e do exercício da alteridade, principalmente no ensino fundamental, mediante visitas a instituições de amparo social, bem como projetos e discussões transdisciplinares que abordem o respeito ao diferente, com o fito de construir uma sociedade pautada na convivência harmônica com as diferenças e, logo, mais empática.

Dessa maneira, o Brasil poderá ter uma realidade diferente de Esparta.