ENEM 2020 (Reaplicação) - A falta de empatia nas relações sociais no Brasil
Enviada em 31/03/2021
Em “Frankenstein”, obra da autora oitocentista Mary Shelley, é retratado o nascimento da “criatura”, um homem projetado em laboratório que não ganha nome. O humanoide, dotado de emoções e inteligência, não é aceito por seu próprio criador, que o repudia pela aparência e, mesmo sabendo do sentimento de solidão e tristeza do ‘monstro’, ainda sim nutre uma profunda indiferença por ele. Fora da ficção, é fato que a relação preenchida por tamanha falta de empatia imaginada por Mary ainda é corriqueira na sociedade brasileira, a qual foi historicamente privada de um senso de solidariedade e, assim, consolidou a ausência de identificação e amparo entre seus integrantes. Destarte, é fundamental analisar os fatores que tornam essa problemática realidade.
Convém ressaltar, a princípio, o passado de disparidades que constitui a formação do Brasil, fator primordial para a fomentação da competitividade e, consequentemente, da falta de empatia que rege a atual sociedade do país. Tal condição pode ser notada ao analisar-se a Guerra dos Emboabas, sucedida ainda nos tempos coloniais. Esse conflito foi marcado pela disputa de paulistas e “forasteiros”, ambos de classes emergentes, que buscavam explorar os minérios do Centro-Sul. Desse modo, os dois grupos, sem recursos, necessitavam sobreviver e, desprovidos de qualquer alternativa ou auxílio do Estado, passaram a enxergar o próximo sempre como rival, quando, muitas das vezes, ambos estavam na mesma situação. Logo, o percurso histórico da nação contribuiu para a não-assimilação e o não-entendimento do “outro”, inibindo qualquer noção de comunidade e amparo mútuo.
Consequente aos fatores supracitados, se estabelece a hostilidade nas relações, gerada por tal precaridade na percepção das necessidades e emoções das outras pessoas. Segundo Imannuel Kant, existe um imperativo categórico que determina a moralidade imparcial nos vínuclos sociais: “age só segundo máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal”. Assim, percebe-se que a visão do filósofo difere da realidade vigente no Brasil, ao passo em que as ações para com o próximo no país esbanjam marcas da parcialidade, aliadas ao sentimento de indiferença.
Torna-se evidente portanto, a necessidade de ações que promovam a empatia nas relações da nação. Desta forma, faz-se mister que o Ministério da Cidadania, em parceira com o Ministério da Educação, crie, por meio de verbas governamentais, um fundo de incentivo a organização de reuniões em comitês regionais que, a partir de medidas socioeducativas, possam integrar membros da comunidade, de modo a gerar solidariedade e empatia nas redes de relações locais. Somente assim, será possível alcançar o estabelecimento da convivência empática entre brasileiros, para que, diferentemente de “Frankenstein”, seja garantida a sensibilização para com os demais.