ENEM 2020 (Reaplicação) - A falta de empatia nas relações sociais no Brasil

Enviada em 02/04/2021

Em sua obra “Ensaio sobre a cegueira’’, o escritor José Saramago ressalta a responsabilidade de ter olhos quando todos os perderam. Sob essa ótica, nota-se uma espécie de cegueira social  intrincada na sociedade, a qual impede os indivíduos de enxergarem problemas, como a falta de empatia nas relações sociais. Nesse sentido, a incompreensão do ser humano sobre o outro, aliada ao egoísmo entremeado na sociedade, colaboram para essa problemática. São relevantes, pois, discussões acerca dos impactos da falta de atitudes empáticas, em nome de relacionamentos mais sólidos no Brasil.

A princípio, é fato que o desconhecimento do ser humano sobre os sentimentos alheios mitiga a empatia. Nesse viés, parafraseando o cantor Lulu Santos, nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia. A partir desses versos, nota-se o incessante movimento do mundo e as suas mudanças. Entretanto, a incompreensão do homem sobre seus semelhantes impede essas transformações, pois a insensibilidade de muitos faz com que não percebam o impacto das suas ações sobre outras pessoas. Tal fato pode ser exemplificado pela cultura do cancelamento, em que usuários usam as redes sociais para ofender quem discorda dos seus discursos, sem perceberem os efeitos desse ato. Assim, em razão dessa indiferença, as interações se tornam frágeis, já que alguns não são capazes de entender as emoções do próximo, conforme pesquisa sobre relacionamentos, da Universidade de Harvard.

Outrossim, o individualismo está diretamente atrelado à falta de atitudes empáticas. Sob esse prisma, o psicanalista Antonio Quinet, em seu livro “Um olhar a mais”, defende que a sociedade contemporânea é mediada pelo olhar. Sob essa ótica, é perceptível o olhar egoísta de muitos, o qual mitiga o altruísmo e a humildade, essenciais para o desenvolvimento da empatia. Isso porque a sociedade se torna mais competitiva e muitas pessoas agem em benefício próprio, em detrimento do coletivo, conforme percebido na pandemia da covid-19, em que alguns deixaram de usar máscara, ignorando o risco de contágio. Posto isso, é inquestionável o efeito negativo das ações individualistas, refletido em questões, como o preconceito étnico, o machismo e a intolerância religiosa, tendo em vista o desrespeito, não só pela opinião, mas também pela dignidade alheia.

Infere-se, portanto, que a fata de entendimento do ser humano sobre os outros e o egoísmo  potencializam a falta de empatia no país. Logo, é basilar que o Ministério da Educação promova seminários, por meio de palestras e “lives” nas mídias sociais, sobre a importância da empatia nas relações, com exemplos de atitudes empáticas do dia a dia, como ações voluntárias. Tal medida tem o fito de fomentar essa virtude nos relacionamentos sociais. Essas intervenções, desse modo, poderão curar os brasileiros da cegueira social metaforizada por Saramago.