ENEM 2020 (Reaplicação) - A falta de empatia nas relações sociais no Brasil

Enviada em 03/04/2021

No livro “Ensaio sobre a Cegueira”, do escritor José Saramago, o leitor é apresentado a uma realidade na qual todos os seres humanos - a não ser a esposa do médico - ficam cegos. Durante a narrativa, as pessoas animalizam-se e primam suas necessidades em detrimento da dos outros. Fora da ficção, presencia-se, na atualidade brasileira, uma falta de empatia latente nas relações sociais, bem como na trama. Isso acontece devido a uma lógica individualista crescente, a qual amplia as redes de ódio no país. Logo, urge resolver essa problemática.

Primordialmente, é importante analisar que a preocupação com o eu individual é um dos principais fatores para a escassez de cuidado com o outro. Nessa perspectiva, depreende-se que à medida que o indivíduo acredita ser necessário cuidar somente do que concerne a si, mais intolerante a sociedade se torna, de modo a caracterizar um espaço no qual a valorização do bem-estar do outro é minimizada. Essa visão está aliada ao conceito de “Modernidade Líquida”, do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, o qual afirma que as pessoas, na contemporaneidade, estabelecem relações mais fluídas oriundas de um individualismo extremado. Sendo assim, é urgente reverter esse quadro social apático.

Por consequência, aumenta-se a atuação de redes de ódio, pautadas em uma nação sem afeto e sem preocupação com seus conterrâneos. Nesse contexto, os operantes desses mecanismos que espalham o mal estar à população, veem-se amparados por uma sociedade estruturada em uma visão mecanicista que visa ao sucesso pessoal e não ao bem-estar coletivo. Dessa forma, eles sentem-se livres para espalhar um ódio que, muitas vezes, pode se tornar fatal, de modo a causar violências físicas, psicológicas e, até mesmo, a morte, como no caso de feminicídios. Essa intolerância ao outro é muito bem representada no documentário “Dilema das Redes”, o qual denuncia o impacto de comentários odiosos nas redes à vida pessoal dos oprimidos.

Portanto, medidas são necessárias para mitigar a falta de empatia nas relações sociais no Brasil. Para tanto, o Ministério da Educação, em parceria com o Ministério da Cidadania, deverá ampliar o sentimento coletivo nos jovens - futuro da nação -, por meio da promoção de “dias do voluntariado” nas escolas, nos quais os alunos serão confrontados com diferentes realidades e mediante elas aprenderão a desenvolver a empatia com os mais diversos públicos. Essa prática será obrigatória tanto em instituições de ensino públicas quanto privadas, a fim de ampliar a gama de estudantes atingidos pelo benefício do desenvolvimento da empatia. Somente assim, será possível distanciarmos a realidade brasileira da distopia de Saramago.