ENEM 2020 (Reaplicação) - A falta de empatia nas relações sociais no Brasil

Enviada em 15/05/2021

De acordo com o filósofo australiano Roman Krznaric, empatia é sobre “achar a humanidade compartilhada”, colocando-se no lugar do outro para transformar o mundo. Contudo, é notória a excassez empática nas relações sociais brasileiras, historicamente marcadas por conflitos de classe, de raça e de gênero, e agravadas pelo advento da modernidade líquida. Dessa forma, é necessário empenho por parte do Estado na construção de uma coletividade altruísta e consciente da importância do próximo.

Diante dessa discussão, em primeiro lugar, é preciso analisar as origens da falta de empatia na convivência social do país. Nesse sentido, uma breve análise histórica é suficiente para desconstruir o mito de que o Brasil é um paraíso nos trópicos, onde os brancos, os negros e os índios convivem em harmonia. Essa imagem utópica foi uma distorção da crueldade empreendida na colonização dos povos nativos por outros, pretensiosamente superiores, criando um obstáculo para o estabelecimento de uma cultura empática, uma vez que é difícil colocar-se no lugar do próximo em um contexto de profunda desigualdade estrutural. Logo, um país originado de relações hierárquicas baseadas na desumanização do diferente enfrenta dificuldades para encontrar essa “humanidade compartilhada” pela espécie humana, de forma que o Brasil segue ocupando posições de destaque na violência e no desrespeito a grupos minoritários.

Além dessa análise das relações sociais em sentido amplo, é imperioso destacar a eclosão da modernidade líquida baumaniana para compreender a frequente falta de empatia nas relações humanas atuais. Para o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, a liquidez dos relacionamentos contemporâneos é observada na superficialidade das conexões entre as pessoas e na virtualização do contato, que deixou de ser majoritariamente pessoal. Tal fragilidade dos laços afetivos não se restringe às relações amorosas e às familiares, mas reflete profundamente na capacidade de reconhecer o outro como um sujeito de direitos, favorecendo comportamentos preconceituosos e a recente tendência de adesão à cultura do cancelamento na internet.

Portanto, é urgente que as relações entre os brasileiros sejam permeadas por valores altruístas, com o objetivo de alcançar um patamar de solidariedade e justiça social. Assim, cabe ao Estado, na figura do Ministério da Educação, por meio de aulas nas escolas, priorizar o ensino das ciências humanas, especialmente com foco nos princípios constitucionais e nas origens da sociedade, a fim de que, desde cedo, seja ensinada a importância de ter empatia com o outro.  Dessa maneira, será possível transformar o mundo pelo caminho da empatia.