ENEM 2020 (Reaplicação) - A falta de empatia nas relações sociais no Brasil

Enviada em 18/05/2021

Na obra “Auto da Barca do Inferno”, Gil Vicente faz o uso de personagens-tipo para tecer uma crítica ao comportamento vicioso da sociedade do século XVI. Fora da ficção, a população brasileira apresenta a mesma conotação o que tange à falta de empatia nas relações sociais, visto que essa é endêmica nas terras tupiniquins. Portanto, convém discutir as causas e as possíveis soluções do impasse, decorrente de uma mentalidade social hostil e da efemeridade dos relacionamentos.

Em primeiro lugar, a hostilidade ao próximo é uma das principais causas do problema. Nesse sentido, de acordo com a teoria marxista do materialismo histórico, o modo de produção de uma sociedade molda todos os aspectos da coletividade. Sob essa perspectiva, o sistema de produção capitalista vigente no Brasil, por usar a concorrência entre indivíduos e instituições como mecanismo de funcionamento, é alicerce para a antipatia nas interações dos cidadãos, já que esses enxergam-se constantemente como um adversário a ser superado.

Ademais, outro ponto relevante nessa temática é a brevidade das conexões sociais. Nesse contexto, no livro “Modernidade Líquida”, Bauman caracteriza a interatividade social contemporânea como “líquida”, dada a sua curta duração. Sob essa ótica, as relações interpessoais efêmeras dificultam a formação de vínculos afetivos entre as pessoas, o que, por sua vez, é um agravador da ausência de altruísmo entre os brasileiros, tendo em vista que a desconexão emocional leva à formação de uma visão de mundo individualista.

Desse modo, é indispensável a presença de ações afirmativas para a resolução da adversidade. Nessa conjuntura, a fim de amenizar a competição gerada pelo capitalismo, as empresas privadas brasileiras devem estimular o trabalho colaborativo entre seus funcionários. Isso deve ser feito por meio de uma reforma na metodologia de prestação de serviços, que conte com a adoção de recompensas de produtividade coletivas em detrimento a individuais, como o abono salarial a todos os empregados de um setor que atingiu uma determinada meta empresarial. Assim, o Brasil destoará cada vez mais da sociedade criticada pelo teatrólogo português.