ENEM 2020 (Reaplicação) - A falta de empatia nas relações sociais no Brasil

Enviada em 04/08/2021

Na obra ‘‘Sobre o autoritarismo brasileiro’’, a historiadora Lilia Schwarcz discorre acerca das raízes sócio-históricas que tornaram o Brasil um país intolerante, violento e que, por consequência, fomentaram a escassez de empatia nas relações sociais. Dessa forma, a herança do sistema escravocrata baseado no poder dos senhores de engenho sobre os africanos escravizados, os povos nativos e as mulheres, garantem ao século XXI a base para crimes de ódio e a cultura de subjugação daquilo que é considerado diferente, o que inviabiliza a capacidade dos sujeitos de se colocarem no lugar de outrem.

Primordialmente, a  colonização brasileira foi pautada pela submissão forçada dos povos indígenas e africanos aos colonos, fator que gerou o apagamento de diversas culturas. Sendo assim, a engrenagem da sociedade nacional baseou-se na exploração e extermínio, sobressaindo a superioridade europeia. Diante desse cenário, relações empáticas eram inviabilizadas, uma vez que, mesmo os próprios jesuítas utilizavam de passagens bíblicas para professarem aos escravizados a justificativa para a escravidão, não se colocando no lugar daqueles que eram açoitados diariamente, inibidos de vivenciarem suas próprias culturas e retirados do seu país de origem para serem explorados até a morte em outro. Não obstante ao fim da escravidão e as mudanças de regimes políticos, a violência e o genocídio negro e indígena perpetua até os dias de hoje destacando a falta de empatia dos brasileiros.

Outrossim, a centralização da vida social na figura masculina do senhor de terras, possibilitou a cultura do estupro tornar-se rotina desde o período colonial até a nova república brasileira. As mulheres negras eram obrigadas a servirem sexualmente os portugueses, destacando a objetificação feminina e a ausência de qualquer sentimento empático.  Dessa maneira, a violência estrutural contra a figura feminina e a falta de direitos, como estudo, trabalho fora do lar e participação política alimentou uma sociedade extremamente verticalizada, na qual os homens consideram as mulheres como uma posse e não como seres humanos para se colocarem no mesmo lugar que elas. Resultado de todos esses fatores são os números assombrosos de feminicídio, estupro e agressão persistirem elevados todos os anos.

Portanto, é urgente que o Ministério da Educação invista em uma grade curricular nacional focada na formação de indíviduos mais empáticos, utilizando para isso de materiais didáticos e aulas extras sobre a história da África sob uma ótica não eurocêntrica e também acerca das lutas feministas em prol da igualdade. Além de eventos fora das aulas para incluir toda a comunidade em debates sobre os temas supracitados, assim, será possível construir uma nova cultura baseada na sensibilidade e empatia.