ENEM 2020 (Reaplicação) - A falta de empatia nas relações sociais no Brasil

Enviada em 31/08/2021

Nessa conjuntura, é valido destacar a negação da alteridade do outro  como geradora da carência de sentimentos empáticos nas relações sociais. Isso porque, segundo o filósofo brasileiro Ricardo Timm, nega-se o próximo e seus direitos para, assim, cometer-lhe qualquer tipo de violência. Com efeito, a crônica jornalística “Mineirinho”, da escritora Clarice Lispector, ilustra de forma contundente a tese do filósofo, haja vista que conta a história verídica do bandoleiro José Rosa de Miranda, vulgo Mineirinho, que foi brutalmente assassinado com 13 tiros em suposto confronto com a polícia. Nesse sentido, é possível notar que, uma vez negada a sua humanidade, não bastou muito para que José Rosa tivesse seus direitos - como o direito à vida - extirpados e, assim, executado de maneira tão cruel. Dessa forma, fica claro que a apatia, tão presente no cenário nacional, é resultado da desumanização do outro, culminando na construção de um discurso de ódio e até mesmo, em casos extremos, numa violência mortífera.

Por conseguinte, a apatia nos relacionamentos interpessoais acentua problemas como a exclusão social e a invisibilidade dos setores marginalizados. Tais consequências são acarretadas, segundo o sociólogo polônes Zygmunt Bauman, pela intolerância à multipluralidade de sujeitos e pela perda do sentido de comunidade em um mundo individualista. Em sua obra “Cegueira moral”, o sociólogo  afirma que atualmente a indiferença é o novo paradigma das relações pessoais, sustentada por uma cultura de relações frágeis e superficiais. Tal realidade é exposta em “Quarto de despejo: diário de uma favelada”, livro autobiográfico de Carolina Maria de Jesus, uma denúncia literária-jurídica e política acerca da invisibilidade e exclusão da mulher pobre e negra de comunidade marginalizada cuja vivência é permeada pela insensibilidade social e abandono governamental.

Frente a tal problemática, faz-se urgente, pois, que as escolas, cujo dever, segundo o patrono da educação brasileira Paulo Freire, é desenvolver não só o conhecimento científico, mas também habilidades socioemocionais, como respeito e empatia, realizem ações concretas a fim de combater a indiferença nas relações sociais. Entre essas ações, deve-se incluir parcerias com as plataformas midiáticas, nas quais propagandas de apelo emocional, por meio de depoimentos de pessoas vítimas de intolerância e invisibilidade social, deverão conscientizar a população acerca da importância do sentimento de comunidade e do respeito à multipluralidade de sujeitos. Somente assim, as denúncias realizadas por Carolina Maria de Jesus poderão ser objeto de estudo literário e não de uma realidade brasileira.