ENEM 2020 (Reaplicação) - A falta de empatia nas relações sociais no Brasil
Enviada em 02/10/2021
A obra “Utopia”, do escritor e filósofo inglês Thomas More, descreve uma cidade onde a principal preocupação era o bem comum, ao qual se submete o individual. Diferentemente da retratada na obra, a atual conjuntura brasileira apresenta, devido ao acelerado contexto moderno, um cenário onde as vontades de cada pessoa se sobrepõem às do coletivo. Nesse sentido, é preciso salientar que, em um mundo repleto de estímulos e demandas constantes, a falta de empatia é resultado da natureza egoísta humana e é agravada pelas exigências psicológicas que o ritmo da sociedade hodierna impõe.
Sob tal viés, cabe notar, primeiramente, que, segundo Yuval Harari, em seu livro “Sapiens”, um dos fatores que favoreceram a supremacia da raça humana sobre outras raças foi seu instinto de sobrevivência. Dessa forma, o egoísmo intrínseco ao homo sapiens, que garantiu seu lugar no topo da cadeia alimentar, também resulta no individualismo evidente nas relações sociais da sociedade brasileira. Entretanto, como expresso pelo contratualista Thomas Hobbes, a natureza selvagem do homem pode – e deve – ser mediada pelo Estado, e é dever desse garantir uma organização social saudável. Dessa maneira, fica claro que a ausência de empatia, decorrente de um instinto primitivo de visar o bem próprio em prol da sobrevivência, pode ser atenuada a partir da observância estatal.
Além disso, o desenvolvimento tecnológico, que trouxe inúmeras facilidades ao cotidiano, também apresentou um novo ritmo social que agrava esse quadro. Nesse contexto, é possível referenciar o sociólogo Georg Simmel e seu conceito de “Atitude de reserva”, que diz que a modernidade intensificou os estímulos recebidos pelos homens e, assim, esses tiveram que se tornar indiferentes ao que não lhes diz respeito para lidarem com as suas demandas pessoais e sociais. Desse modo, é notório que esse comportamento egoísta é também uma resposta ao cotidiano acelerado, que afeta psicologicamente as pessoas e as leva ao distanciamento emocional como forma de proteção. Logo, é nítido que a rotina moderna é responsável pelo agravamento da natureza humana, enfraquecendo os laços empáticos.
Portanto, é possível concluir que medidas são necessárias para resolver os problemas supracitados. Por esse motivo, cabe ao Estado brasileiro, responsável pela população sob sua tutela, conter a natureza humana e as consequências da modernidade promovendo o exercício da empatia e a saúde mental e social dos indivíduos. Essas ações podem se concretizar por meio da alteração da matriz curricular, incluindo disciplinas e atividades voltadas para o desenvolvimento emocional dos jovens, estimulando os indivíduos, desde novos, a desenvolverem relações sociais mais saudáveis e do trabalho de psicólogos em escolas e empresas. Espera-se que, com essas medidas, a sociedade brasileira também possa, um dia, vir a se tornar uma utopia canarinha.