ENEM 2020 (Reaplicação) - A falta de empatia nas relações sociais no Brasil
Enviada em 11/10/2021
No episódio “Odiados pela Nação”, da série “Black Mirror”, produzida pela Netflix, é apresentada uma sociedade, na qual toda pessoa que comete publicamente um erro é incluída em uma enquete virtual, em que os usuários escolhem um indivíduo que deverá ser morto. Ao perceberem o êxito do jogo, cada vez mais internautas participam dessa votação, movidos pelo ódio, o que impede qualquer retratação do acusado. Fora da ficção, assim como na série, a falta de empatia na sociedade brasleira tem agravado tensões sociais, devido ao individualismo exacerbado da atualidade e da ausência de promoção ao diálogo nas escolas e na sociedade civil.
É válido analisar, inicialmente, que o individualismo exacerbado promovido pela rede cibernética constitui-se em um dos principais fatores da ausência de empatia nas relações sociais. Isso ocorre, pois, a profunda personalização das mídias sociais, respaldadas nos gostos e nas opiniões do usuário, isolam-no de perspectivas de mundo distintas, fazendo qualquer indivíduo ou grupo com mentalidade diferente ser visto como inimigo. Dito isso, o filósofo sul-coreano Byung Chul-Han, em seu livro “Sociedade do Cansaço”, afirma que esse individualismo e o narcisismo, que caracterizam a humanidade contemporânea, ocasionados pelas redes sociais, acarretam a perda da noção de comunidade. Assim, a capacidade de se colocar no lugar do outro se torna cada vez mais escassa e tensões sociais são agravadas.
Outrossim, a ausência de promoção ao diálogo nas escolas e na sociedade civil sobre essa problemática também é um empecilho para a empatia entre os indivíduos. Tal fato ocorre, pois o Brasil é marcado por inúmeros preconceitos, desde à colonização, contra alguns grupos -mulheres, negros, indígenas-, o que foi perpetuado e banalizado pela sociedade ao longo dos séculos. Dessa forma, como “habitus” que é -teoria defendida pelo filósofo francês Pierre Bourdieu, em que os indivíduos são moldados por estruturas externas e anteriores a eles-, a empatia deve ser algo incentivado e debatido pelas pessoas para desnaturalizar a violência vivenciada pelas minorias, enraizada na cultura nacional.
São necessárias, portanto, medidas que impulsionem a empatia nas relações sociais. Para isso, as mídias sociais deverão “furar as bolhas” existentes por meio da exposição do usuário a conteúdos variados, que não necessariamente atendam aos seus gostos, a fim de que o internauta aprenda a lidar com opiniões divergentes. Ademais, o Ministério da Educação deverá promover a construção de um senso crítico mais empático nas escolas e nas famílias por meio de aulas e palestras a serem ministradas por profissionais da área de Humanas, a fim de que o diálogo sobre a empatia seja naturalizado na sociedade. Assim, realidades como as de Black Mirror permanecerão na ficção.