ENEM 2020 (Reaplicação) - A falta de empatia nas relações sociais no Brasil

Enviada em 06/10/2021

“Você já passou por mim e nem olhou pra mim”. Respectivos versos, da canção “Invisível” da banda Baiana System, expressam a marginalização social enfrentada pelos indivíduos que não possuem voz e nem espaço. Análogo à música, é notório que a falta de empatia nas relações sociais perpetua-se no cenário brasileiro, haja vista o individualismo contemporâneo que não acolhe e, tampouco, cria oportunidades para compartilhar experiências distintas hábeis em combater os ataques de ódio e os quadros depressivos ocasionados pela exclusão social justificada pela falta de empatia.

De início, no contexto cultural, o autor José Saramago dissertou, por meio de sua obra “Ensaio Sobre a Cegueira”, a respeito da cegueira metafórica e epidêmica que atinge a sociedade egocêntrica que apresenta dificuldades para enxergar a realidade do outro. Nesse viés, é perceptível que a falta de comportamentos empáticos advém, sobretudo, da bolha de individualidade que submerge o mundo hodierno fincado nas raízes do egoísmo que inviabilizam o olhar social humanizado. Tal bolha individualista corrobora, também, para o crescente número de ataques de repúdio às realidades que divergem do padrão estereotipado socialmente e evidencia, dessa forma, a gravidade das relações sociais isentas da empatia necessária para a compreensão das diferenças que compõem a cultura.

Outrossim, é imprescindível destacar que a falta de empatia aflora os distúrbios psíquicos enfrentados pela parcela incompreendida da sociedade que busca, constantemente, apoio psicológico para lidar com a falta de espaço causada pela antipatia. Nesse panorama, a obra “A Hora da Estrela”, de Clarice Lispector, narrou a negligência social à qual a protagonista Macabéa fora submetida, tendo em vista a impaciência dos personagens para lidar com as dificuldades adaptativas da nordestina que, com traços de regionalidade marcados pela oratória e pelo comportamento, sofrera, ainda, a xenofobia evidenciada pela escassez de atitudes de alteridade; o que salienta o potencial de opressão assumido pela falta de empatia, uma vez que a desumanização dos olhares sociais prejudica as relações sociais brasileiras ao abalar o psicológico dos negligenciados.

Fica claro que a falta de empatia nas relações sociais é, portanto, uma problemática alarmante no Brasil. Na perspectiva de solucionar o óbice em questão, urge ao Ministério da Educação a inserção de matérias tangentes ao convívio social na grade curricular infantil para que as crianças tenham acesso, desde cedo e por meio de palestras ministradas por profissionais capacitados e humanizados, à importância de se colocar no lugar do outro para entender, através da empatia, crenças além das próprias. Dessarte, observar-se-ia a superação da individualidade que, ao distanciar os cidadãos, compromete as relações sociais com a proliferação da “cegueira” antipática narrada por Saramago.