ENEM 2020 (Reaplicação) - A falta de empatia nas relações sociais no Brasil

Enviada em 11/10/2021

De acordo com a Teoria do Habitus do filósofo francês Pierre Bourdieu, a coletividade fica passiva diante da estrutura social pré-existente e, portanto, fica fadada a perpetuar certas mazelas. Nesse sentido, a falta de empatia nas relações sociais permite a normalização de abusos como a exploração do trabalhador e a manutenção do racismo na sociedade brasileira. Logo, cabe ao Estado em conjunto com a população civil articular medidas que revertam esse cenário e promovam uma convivência harmônica entre os indivíduos.

A princípio, a falta de empatia nas relações sociais laborais se dá quando a sede do lucro fica acima do reconhecimento do outro como ser humano -cujas necessidades também devem ser validadas-, levando-o a se submeter a empregos exploratórios. Sob essa perspectiva de desumanização, no livro ‘‘Quarto de despejo’’ da autora negra e catadora de recicláveis Carolina Maria de Jesus, ela retrata como se sentia objetificada por existir naquele contexto de favela, fome e miséria, além de mostrar que a despreocupação da sociedade com pessoas como ela- ‘‘objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo’’- era algo naturalizado. Essa devastadora realidade, infelizmente, é comum no Brasil e faz com que a população aceite qualquer forma de trabalho, mesmo que seja análoga à escravidão, para poder sobreviver.

Somado a exploração trabalhista, a falta de empatia nas relações sociais se dá também na continuidade da propagação do racismo na sociedade brasileira. Nesse contexto, esses fatores se relacionam devido um histórico exploratório vindo desde o período colonial, que se baseou na retratação do negro como mercadoria e não como ser humano. Com base nesse argumento, segundo a revista Veja, mais ou menos 5% dos cargos de alto escalão das 500 maiores empresas do país são ocupados por pessoas negras, mesmo elas sendo maioria no território - de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística(IBGE) 56%. Isso reflete o não reconhecimento do outro, o negro, como parte do corpo social que merece o mesmo prestígio que a parte branca, repetindo comportamentos de origens coloniais.

Portanto, a fim de reverter a falta de empatia nas relações sociais brasileiras, cabe ao Estado promover, junto com as instituições de ensino e com a sociedade civil, projetos sociais em comunidades carentes- como distribuição de alimentos, roupas e produtos básicos de higiene-, cursos profissionalizantes gratuitos e palestras acerca do racismo -sua persistência e manifestação na sociedade. Para que o povo entenda que o bem-estar do outro é tão válido quanto o próprio, e também entenda que é possível ficar ativo e revolucionar a estrutura social racista e exploratória pré-existente.