ENEM 2023 - Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil

Enviada em 08/11/2023

Em consoante com a pensadora feminista Judith Butler, o conceito de gênero apresenta-se como um enunciado social performativo construído pelo patriarcado, responsável por rechaçar a existência feminina. Sob tal ótica, no atual cenário brasileiro, inúmeros são os desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pelas mulheres. À vista disso, urge que medidas sejam tomadas, com o intuito de amenizar a problemática, motivada não só pelo silenciamento midiático, mas também pela inação governamental.

Evidencia-se, em primeira análise, a carência de discussões acerca do apagamento feminino do trabalho de cuidado como fator determinante para a persistência da questão. Nessa perspectiva, de acordo com o sociólogo Karl Marx, em sua teoria do “Silenciamento dos Discursos”, alguns temas são omitidos na esfera coletiva, com o objetivo de ocultar mazelas sociais. Nessa lógica, mediante a influência mercadológica, observa-se que a mídia, ao priorizar temáticas elitistas, não veicula a importância social do trabalho de cuidado, realizado sobretudo por mulheres, para o desenvolvimento equânime da sociedade brasileira, o que legitima a supressão de debates sobre o assunto. Assim, o inaceitável elitismo midiático amplifica desigualdades de gênero e estigmatiza percepções sociais em relação às mulheres.

Ademais, é incontestável que a ingerência federal configura-se como outra causa da adversidade. A partir disso, o filósofo Zygmunt Bauman desenvolveu o conceito “Instituições Zumbis”, segundo o qual algumas instâncias, como o Estado, apesar de existirem, perderam sua função social. Nesse contexto, o poder público faz-se omisso ao flexibilizar legislações que deveriam amparar socialmente as mulheres que, por exemplo, cuidam de crianças, idosos e pessoas com deficiência, haja vista a recorrência do trabalho não remunerado e mal pago, fator que naturaliza estruturas sociais de opressão. Dessa forma, o absurdo imobilismo estatal afasta uma importante parcela da sociedade do ideário democrático nacional e normaliza o patológico quadro supracitado