ENEM 2023 - Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil
Enviada em 17/01/2024
“Que horas ela volta”, obra cinematográfica brasileira, acompanha a vida de uma empregada doméstica e denuncia as mazelas da desigualdade social, profissional, salarial e o preconceito de gênero vividos pela protagonista. Fora da ficção, é fato que o trabalho de cuidado é amplamente discriminado e mal remunerado, e apesar de ser essencial para o funcionamento pleno da sociedade, é vítima da perpetuação de estigmas machistas e misóginos, além da grave inequidade vivida no país. Destarte, a reprodução de histórias similares à da personagem abre espaço para debates que pautem os desafios para o combate da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil, atraindo o olhar da população para a realidade.
Primeiramente, é imperioso destacar que o citado “trabalho de cuidado” refere-se a diversas ocupações domésticas – de cuidadores de crianças e idosos à afazeres domésticos – que são, sem dúvidas, majoritariamente exercidos por mulheres em condições de pobreza e miséria. Sendo assim, reproduz intrinsecamente convenções de gênero e estereótipos patriarcais socialmente cristalizados, impede a independência total feminina, destrói e mina o sonho de garotas e, de antemão, dificultam o acesso a oportunidades, perpetuando o status de pobreza. Outrossim, contribui para a formação de homens machistas e pouco funcionais, objetificando e desvalorizado cada vez mais, e exponencialmente, a figura feminina.
Ademais, é necessário acrescentar a desigualdade salarial experienciada por essas cuidadores. Isto é, a mal remuneração, junto ao desprestígio ocupacional torna-as invisíveis perante a sociedade. Consoante ao filósofo francês Sartre, se “toda violência é uma derrota social”, é evidente que o apagamento da identidade de uma cuidadora é um ato de violência brutal e simbólica, e também responsabilidade de toda coletividade brasileira, sendo essencial o reconhecimento da importância de cada “dente” para o funcionamento da “engrenagem social”.
Portanto, fica explícito a importância e urgência para resolução desse impasse. Para tanto, cabe às escolas e universidades o ensino e resgate de figuras femininas ao imaginário do país, impedindo o apagamento de suas vozes.