ENEM 2024 - Desafios para a valorização da herança africana no Brasil

Enviada em 04/11/2024

Em “Casa grande e senzala”, Gilberto Freyre defende que a sociedade brasileira é baseada em uma “democracia racial”. Todavia, esse ideal não se faz realidade, já que há desafios para a valorização da cultura negra no Brasil. Isso ocorre devido à negação da ancestralidade e simultaneamente, em virtude da ausência de justiça social.

Em primeira análise, há no país uma visão limitada a respeito dos antepassados. Dentro desse viés, Ailton Krenak - membro da Academia brasileira de letras - escreve que o respeito ao legado dos ancestrais é essencial para a satisfação de um povo. Contudo, essa filosofia não é praticada no Brasil, dado que os ancestrais africanos são usualmente lembrados com uma nomenclatura problemática: “escravos”. Na verdade, esses indivíduos, apesar de terem sido vítimas de uma barbárie histórica, contribuíram imensamente para a construção da nação, pois sua presença cultural em diversos âmbitos - culinária, dança, lutas corporais, vestimentas - é rica e insubstituível. Logo, os primeiros afro-brasileiros não eram apenas trabalhadores, mas sim agentes que, ativamente, semearam o país atual.

Em segunda análise, a desvalorização das tradições africanas está ligada à desigualdade econômica. Nesse sentido, Frantz Fanon, em sua obra “Racismo e cultura”, explica que o racismo foi deliberadamente fomentado para justificar a escravidão de vários povos. Com isso, a negação da cultura negra é uma forma de manter a marginalização étnica, pois se um grupo não pode ao menos expressar sua identidade, está mais propenso a ser inferiorizado e explorado economicamente. Portanto, a segregação fenotípica não deixou de existir, apenas foi camuflada em suas manifestações, o que impede a plena democracia.

Em suma, é mister extinguir essa chaga. Para tanto, o Ministério da Educação, por meio de verbas públicas, investirá em ações lúdicas - como teatros e visitas a museus - para ensinar a importância e a participação da cultura negra no Brasil. Isso se dará por intermédio de professores e objetivo será promover uma verdadeira democracia racial, como sonhou Gilberto Freyre.