ENEM 2024 (Reaplicação e PPL) - Desafios para a valorização da arte de periferia no cenário cultural brasileiro

Enviada em 16/10/2025

A Constituição Federal de 1988 garante o acesso à cultura como um direito inalienável. Contudo, o panorama cultural brasileiro revela uma evidente seletividade, onde a efervescência artística das periferias urbanas permanece à margem do reconhecimento. Essa invisibilidade histórica compromete a diversidade estética nacional e a plena democratização da cultura. Para reverter esse quadro, é fundamental enfrentar a elitização do sistema e o preconceito social que deslegitima a produção periférica.

Em primeira análise, o mercado e as instituições atuam como barreiras. O sociólogo Jessé Souza, ao discutir a “ralé brasileira”, aponta como a desigualdade é estruturada e se reflete na valoração cultural. Os grandes centros de difusão e o financiamento tendem a privilegiar o que já é estabelecido no eixo central, relegando a arte periférica a um plano secundário. Assim, manifestações como o rap, o grafite e o teatro de rua encontram enormes dificuldades para obter patrocínio e inserção nos circuitos oficiais.

Ademais, a produção criativa das comunidades enfrenta um forte estigma social. Muitas vezes, a arte vinda das favelas é associada à violência ou à “cultura menor” pela mídia hegemônica, desconsiderando seu valor estético e poder de denúncia. O sucesso da escritora Conceição Evaristo exemplifica o potencial dessas vozes, mas também a persistente dificuldade de reconhecimento pleno. Esse preconceito limita o alcance das obras e nega-lhes o merecido lugar no patrimônio cultural brasileiro.

Portanto, para integrar a arte de periferia ao cenário nacional, é crucial uma intervenção governamental efetiva. O Ministério da Cultura (MinC) deve instituir o “Programa Nacional de Inclusão e Reconhecimento da Arte Periférica”. Isso se daria por meio da criação de cotas obrigatórias em todos os editais públicos, destinadas a artistas de comunidades de baixa renda. A finalidade é assegurar o financiamento, a profissionalização e a circulação dessas obras, cumprindo a promessa constitucional de acesso cultural.