ENEM 2024 (Reaplicação e PPL) - Desafios para a valorização da arte de periferia no cenário cultural brasileiro

Enviada em 18/10/2025

A produção cultural das periferias brasileiras, uma das mais vibrantes expressões da identidade nacional, enfrenta barreiras históricas de reconhecimento. Esses obstáculos estruturais limitam o acesso dos artistas periféricos aos circuitos consa-grados e empobrecem o patrimônio cultural do país, privando-o de narrativas es-senciais à compreensão da complexidade nacional.

Nesse contexto, um dos principais entraves é a concentração de recursos e opor-tunidades culturais nas mãos de uma elite tradicional. Grandes editais, patrocínios corporativos e espaços expositivos de prestígio mantêm-se majoritariamente vol-tados para manifestações artísticas já consagradas, frequentemente desconecta-das das realidades periféricas. Segundo o Mapa da Desigualdade de 2023, distritos periféricos possuem até 10 vezes menos equipamentos culturais que regiões cen-trais das grandes cidades, evidenciando como a exclusão econômica sistemática inviabiliza a profissionalização de talentos emergentes e reforça um ciclo vicioso de invisibilidade.

Outro desafio considerável soma-se às barreiras econômicas: a questão estética e geográfica. Conforme analisado pelo sociólogo Muniz Sodré em “A ciência do co-mum”, a colonialidade do saber estabelece hierarquias que inferiorizam expres-sões culturais periféricas. Essa lógica desqualifica linguagens como o funk, hoje re-conhecido como patrimônio cultural do Rio de Janeiro, e o graffiti, que ganhou o mundo através de artistas como Os Gêmeos. Desde os processos de urbanização do século XX, as periferias vêm desenvolvendo linguagens artísticas autênticas que dialogam com suas realidades, criando um rico patrimônio simbólico que enfrenta dupla marginalização - estética e espacial.

Diante disso, urge uma atuação conjunta do poder público, via editais específicos e centros culturais descentralizados, e da iniciativa privada, com patrocínios que re-conheçam esse valor. A Constituição de 1988, ao garantir os direitos culturais, fun-damenta tais ações. Assim, será possível construir um cenário artístico verdadeira-mente democrático, onde a arte periférica ocupe seu legítimo lugar como patrimô-nio nacional essencial.