ENEM 2024 (Reaplicação e PPL) - Desafios para a valorização da arte de periferia no cenário cultural brasileiro

Enviada em 16/10/2025

A arte sempre foi um espelho da sociedade e, no Brasil, esse reflexo revela um paradoxo: enquanto a periferia produz expressões culturais vibrantes e autênticas, sua valorização no cenário artístico ainda é limitada. Seja no rap, no grafite, no slam ou no teatro comunitário, as manifestações periféricas traduzem a realidade social de milhões de brasileiros. Entretanto, o preconceito estrutural e a falta de políticas culturais efetivas dificultam seu reconhecimento. Assim, é imprescindível discutir os desafios que impedem a plena valorização da arte de periferia no país.

De acordo com o sociólogo Pierre Bourdieu, a cultura dominante tende a legitimar apenas aquilo que é produzido pelos grupos detentores de capital simbólico. Essa lógica se manifesta no Brasil quando produções vindas das periferias são rotuladas como “menores” ou “alternativas”, sendo frequentemente excluídas dos grandes circuitos artísticos. O grafite, por exemplo, muitas vezes é criminalizado, mesmo sendo uma forma legítima de expressão social e política. Essa seletividade cultural evidencia a persistência de uma hierarquia simbólica que marginaliza o que vem das margens.

Além disso, a escassez de políticas públicas voltadas à democratização do acesso e da produção cultural agrava o problema. Programas como o “Cultura Viva” e os Pontos de Cultura, criados no início dos anos 2000, mostraram-se eficazes em incentivar expressões locais, mas sua continuidade tem sido prejudicada por cortes orçamentários e falta de apoio institucional. Sem financiamento e espaços adequados, artistas periféricos dependem de iniciativas independentes e redes comunitárias para existir — o que, embora admirável, limita seu alcance em escala nacional.

Portanto, para que a arte da periferia ocupe o espaço que lhe é de direito, é necessário romper com o elitismo cultural e fortalecer políticas que garantam visibilidade e investimento contínuo. A escola deve atuar como espaço de difusão e valorização dessas manifestações, promovendo contato entre os estudantes e artistas locais. Paralelamente, o Estado precisa assegurar editais e leis de incentivo voltadas a coletivos periféricos, ampliando sua presença em museus, festivais e mídias.