ENEM 2024 (Reaplicação e PPL) - Desafios para a valorização da arte de periferia no cenário cultural brasileiro

Enviada em 13/10/2025

De modo análogo à Semana de Arte de 1922, que rompeu com padrões estéticos importados, a arte periférica contemporânea luta por legitimidade contra uma elite cultural interna. Nesse contexto, a plena valorização dessas manifestações no Brasil encontra barreiras no preconceito estrutural e na ineficácia de políticas públicas inclusivas, que perpetuam um ciclo de invisibilidade e marginalização.

Nesse viés, o elitismo se revela um entrave central. Conforme a teoria do “capital cultural” de Pierre Bourdieu, as classes dominantes validam as expressões que refletem seus códigos, marginalizando produções como o grafite, o funk e o slam poético, frequentemente taxadas de “menores” ou “poluídas”. Essa deslegitimação simbólica não apenas priva artistas de reconhecimento e investimento, mas também reforça a falsa noção de que o valor artístico está intrinsecamente atrelado à origem social e econômica.

Ademais, a omissão estatal agrava essa conjuntura. Embora a Constituição de 1988 garanta o acesso à cultura como um direito fundamental, a realidade espelha o conceito de “cidadania de papel”, de Gilberto Dimenstein, pois os investimentos em equipamentos culturais se concentram desproporcionalmente nos centros urbanos abastados. Tal vácuo institucional nas periferias impede o fomento de talentos locais e a circulação de suas obras, condenando-os à precariedade e ao amadorismo forçado.

Portanto, a superação desses desafios exige uma ação coordenada. Cabe ao Ministério da Cultura, em parceria com as prefeituras, instituir o programa “Cultura Viva na Periferia”. Essa iniciativa deverá ser implementada por meio da realocação de verbas do Fundo Nacional de Cultura para a construção e manutenção de centros culturais multifuncionais — com estúdios, palcos e galerias — nas áreas mais necessitadas do país. Essa medida, que deve incluir a gestão participativa da comunidade local para garantir sua pertinência, tem como finalidade democratizar o acesso à infraestrutura artística e profissionalizar os talentos locais. Com isso, o Brasil poderá, enfim, reconhecer e integrar a potência criativa de suas bordas à identidade nacional.