ENEM 2024 (Reaplicação e PPL) - Desafios para a valorização da arte de periferia no cenário cultural brasileiro
Enviada em 15/10/2025
Em “Cidade de Deus”, filme dirigido por Fernando Meirelles, é apresentada a dura realidade das favelas brasileiras, mas também a potência humana e criativa existente nesses territórios. Fora das telas, milhares de jovens periféricos expressam vivências através do rap, do grafite, do slam e da dança, compondo um importante cenário cultural nacional. Contudo, apesar da riqueza estética dessas manifestações, a arte periférica ainda enfrenta desvalorização e invisibilidade. Esse cenário evidencia obstáculos relacionados tanto ao preconceito social quanto à falta de políticas públicas de incentivo cultural.
Sob essa ótica, é pertinente recorrer ao pensamento do filósofo Theodor Adorno, que critica a indústria cultural por padronizar a arte e privilegiar produções elitizadas. Tal lógica marginaliza expressões que não se enquadram no gosto dominante, como ocorre com artistas periféricos, frequentemente rotulados como “amadores” ou “alternativos”. Essa deslegitimação simbólica atua como barreira para que a arte da periferia seja reconhecida como patrimônio cultural legítimo. Logo, superar esse estigma é essencial para garantir a pluralidade artística no país.
Além disso, a escassez de investimentos destinados às manifestações periféricas intensifica o problema. De acordo com dados do IBGE (2022), menos de 15% dos projetos financiados por leis de incentivo à cultura contemplam iniciativas em regiões periféricas. Isso revela uma concentração de recursos em centros culturais tradicionais, impedindo que talentos emergentes tenham acesso a formação, equipamentos e espaços de apresentação. Assim, a desigualdade de oportunidade perpetua um ciclo de invisibilidade, que compromete a inclusão cultural prevista na Constituição Federal de 1988.
Portanto, para que a arte de periferia conquiste o devido reconhecimento, é necessário um compromisso público e social. O Ministério da Cultura, em parceria com secretarias locais, deve criar editais exclusivos e centros comunitários de formação artística, por meio de repasses do Fundo Nacional de Cultura, com o objetivo de garantir visibilidade, profissionalização e circulação das produções periféricas. Desse modo, será possível consolidar um cenário cultural verdadeiramente democrático e representativo da diversidade brasileira.