ENEM PPL 2009 - A família contemporânea e o que ela representa para a sociedade
Enviada em 05/11/2021
O sociológo Émile Durkheim defendia que a família é um mecanismo primário de socialização, ou seja, é uma instituição responsável pela introdução do indivíduo à sociedade, a qual o ensina os princípios básicos da cidadania. Sob essa ótica, hodierno contexto de negação da pluralidade das estruturas familiares no Brasil vai de encontro com a ideia de Durkheim, visto que afrontar tal pluralidade retira de uma substancial parcela da nação o direito de ser uma instituição primária. Isse se deve, sobretudo, ao preconceito cultural e à negligência do estado.
Mormente, é válido ressaltar que a mentalidade restritiva acerca da constituição familiar tem uma raiz histórica. Nessa perspectiva, no livro “Casa Grande e Senzala”, o antropólogo Gilberto Freyre pontua que a estrutura social brasileira foi construída a partir de uma empréstimo de costumes, na qual se importou o modelo de família tradicional europeia do século XVI. Sob esse viés, a contemporânea percepção discriminatória de que apenas um tipo de organização familiar é correto é reflexo da denúncia de Freyre, visto que tal absurdo é uma herança do período colonial que limita a reflexão sobre a importância da diversidade social. Dessa forma, a não discussão sobre a origem cultural da ideia de família restringe a multiplicidade dessa instituição.
Outrossim, o descompromisso estatal, no que tange a defender a universalidade da noção de família, nega um direito fundamental. Sobre isso, a Constituição Federal, no artigo 226, postula que a família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado. Nesse tocante, é notório que esse preceito não é respeitado, pois o poder público, ao abdicar de promover a conscientização social sobre a importância de respeitar as múltiplas formações familiares, demonstra sua irresponsabilidade e expõe a vulnerabilidade os cidadãos que não constituem uma família tradicional. Dessa maneira, o imobilismo governamental se torna um grande empecilho para valorização das famílias contemporâneas.
Torna-se imprescindível, portanto, buscar a afirmação de um modelo de sociedade que respeite a numerosidade dos modelos familiares. Para isso, é papel das instituições escolares - órgãos responsáveis pela formação cívica da população - garantir a discussão sobre a variedade de composições familiares, por meio de aulas com professores de sociologia, a fim de desconstruir os preconceitos sobre a temática. Ademais, o Ministério da Educação deve elaborar campanhas publicitárias que combatam a ideia de uma singularidade familiar com objetivo de garantir o respeito a diversidade. Assim, quiçá um dia, todas as famílias tenham acesso ao direito proposto por Émille Durkheim.