ENEM PPL 2017 - Consequências da busca por padrões de beleza idealizados
Enviada em 24/01/2021
Uma das mais conhecidas narrativas da mitologia grega é a de Narciso, jovem de beleza tão exuberante que, além de instigar suicídios entre os seus admiradores, causou a sua própria morte pela contemplação incessante de seu reflexo. Embora esse mito constitua uma representação fiel da idolatria ao corpo, fenômeno de forte presença na sociedade, possui um aspecto de grande contraste: na realidade, a apreciação de si mesmo é majoritariamente ausente. Onde estariam as raízes dessa discrepância? Até onde chega a obsessão por uma estética impecável?
Antes de tudo, é preciso considerar os mecanismos que originam tal procura e o papel incontestável da atuação midiática nesta. A construção dos ideais de beleza e de sua cobrança pode ser explicada em parte pela teoria da “coerção social”, formulada pelo sociólogo francês Émile Durkheim, segundo a qual valores e padrões são impostos de forma inconsciente pela sociedade. Com base nisso, neste mundo em que o desejo por lucro se intensifica constantemente, empresas e organizações, aliadas à mídia, utilizam desse conceito para ditar padrões estéticos inalcançáveis. Dessa forma, mantêm as indústrias de cosméticos e de procedimentos sempre movimentadas através da criação de um mercado consumidor que nunca fica satisfeito com sua imagem.
Como consequência, nota-se que os impactos advindos dessa cobrança são facilmente perceptíveis. Justificativa para a acelerada adaptação dos indivíduos a esses moldes está no pensamento de Guy Debord, exposto em “Sociedade do Espetáculo”, de acordo com o qual as pessoas transmitem uma versão de si que não reflete sua verdadeira identidade a fim de agradar uma plateia: seu meio social. Entre os efeitos dessa cultura, marcada pela cobrança de uma alta performance constante, estão distúrbios como a anorexia, bulimia e a dismorfofobia, além de autoestima reduzida, que levam a atitudes extremas, quedas de desempenho e inclusive fazem do Brasil o país que mais realiza cirurgias plásticas conforme a ISAPS (Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética).
Sendo assim, diante dos aspectos apresentados, fica evidente como a preocupação com padrões de beleza idealizados constitui um relevante desafio a ser superado. Portanto, é papel da sociedade, por meio de boicotes e da disseminação da cultura da autoaceitação, cobrar e forçar a adaptação de instituições e da mídia com a inclusão de maior representatividade em mercadorias, comerciais e produções artísticas. Espera-se que o conceito de beleza seja reformulado e deixe de assombrar milhares de indivíduos pela discrepância com as imagens que eram apresentadas, mostrando-os aparências com as quais podem se identificar; pois, assim como ensina o mito de Narciso, a obsessão pela aparência é uma sentença de morte.