ENEM PPL 2017 - Consequências da busca por padrões de beleza idealizados
Enviada em 12/11/2021
O pensador francês, Michel Foucault teorizou que muitos dos parâmetros fundamentais com os quais definimos nossa existência são impostos de maneira sutil por aqueles que ocupam posições de poder, incluindo a valorização excessíva da nossa auto-imagem. Desse modo, ao incorporar um juizo de valor excludente e idealizado, estimula-se um comportamento de penitência e repreensão por não se sentir suficiente. Desse modo, instaura-se um verdadeiro culto às aparências em que, valorizando padrões romantizados e inatingiveis, estimula-se o comportamento obsessívo.
É importante pontuar, primeiramente, que, ao tratar-se de vaidade, é difícil controlar os impulsos: muitos acabam realizando cirurgias plásticas ao se convencerem da necessidade dos procedimentos quando, muitas vezes, as motivações são duvidosas. Muitas dessas pessoas, partindo de um impulso alimentado pelo catálogo de rostos e corpos da industria do entretenimento, optam por procedimentos arriscados e caros, que muitas vezes não alcançam as expectativas e deixam famílias endividadas e decepcionadas. Este foi o caso de Ana dos Santos, professora e de uma escola de campinas, que, após gastar suas economias numa cirurgia de “harmonização facial”, teve de realizar um emprestimo para desfazer o procedimento.
Além disso, vale mencionar o estresse físico e mental que a “cruzada” pelo corpo perfeito induz nas pessoas, fazendo-as recorrer ao uso de drogas anabolizantes e comportamentos compulsivos a fim de alcançar os padrões das revistas de moda e concursos de fisiculturismo. Segundo dados publicados na revista Science, um em cada cinco praticantes de musculação fazem ou já fizeram uso de anabolizantes, o que pode ser perigoso, visto que essas drogas podem afetar o sistema cardiovscular, aumentando o risco de problemas cardiacos e derrames. Ademais, o peso da imposição cultural leva à auto-depreciassão diante da realidade do peso não ideal e, com isso, surge o comportamento obsessívo e insustentável da indulgência seguida do sentimento de culpa, conhecido como bulimia nervosa.
Faz-se evidente, portanto, a necessidade de se cultivar ideais coletivos mais saudáveis e inclusivos que promovama um maior bem estar em detrimento das sensações de inadequação e culpa. Urge, então, que o Ministério da Saúde organize campanhas que, veiculadas na televisão e nas mídia digitais, abracem a diversidade, imprimindo uma noção de beleza menos objetiva e mais subjetiva, sujeita à individualidade. Além disso, é necessário que haja, por parte do poder Legislativo, uma movimentação no sentido de criar leis que exijam um acompanhamento psicológico de pacientes interessados em plásticas, a fim de garantir um maior nivel de satisfação e evitar decepções. A partir daí, podemos, talvez, passar a apreciar o mundo como ele é e deixar de nos decepcionar com o que ele deveria ser.