Ensino domiciliar em questão no Brasil
Enviada em 22/10/2019
No filme americano “O extraordinário” é retratada a vida de Auggie Pulmann, o qual nasceu com uma rara doença facial que impõe ao menino barreiras no convívio estudantil. Assim, Auggie é alfabetizado pela mãe até o momento em que a escola atua como uma forma de superar tais diferenças. Fora da ficção, observa-se na hodiernidade que a educação domiciliar no Brasil impede a socialização da criança, além de haver a falta de domínio do conteúdo ensinado pelos tutores. Convém, portanto, analisar de maneira crítica essa problemática.
Em primeira análise, no ano de 1549, os jesuítas chegaram ao Brasil com o objetivo de catequizar os indígenas, os quais tiveram sua religião e cultura suprimidas em detrimento dos interesses políticos - econômicos dos europeus. Nesse contexto, a educação dada em casa não permite que as relações interpessoais das crianças ocorram, visto que não há o convívio com as diferenças nem com a singularidade de cada um e, por conseguinte, o desenvolvimento intelectual como também a criatividade dos indivíduos são comprometidos. Dessa forma, ao serem educados pelos pais, as crianças são moldadas pelo universo cultural desses, tal qual houve a imposição da ideologia europeia sobre os preceitos dos nativos brasileiros. Isso é comprovado pela amostragem do IBGE de que 70% dos menores que foram educados em casa apresentam receio no processo de socialização.
Paralelo a isso, embora seja dever da Constituição Cidadã de 1988 garantir uma educação de qualidade a todos perante à lei, na pratica tal isonomia não é concretizada. Sob esse viés, é perceptível que a adoção do ensino domiciliar fere os direitos estabelecidos na Carta Magna, uma vez que os pais não detêm todo o conhecimento acadêmico necessário para repassar aos filhos, gerando então indivíduos com um acervo escolar defasado. Visto isso, segundo a perspectiva de Kant, o ser humano deve agir não buscando um fim em si mesmo, mas como um ato que sirva de exemplo universal, o que reprime a didática familiar, posto que cidadãos instruídos de maneira errônea encontrarão empecilhos no âmbito laboral, isto é, não terão o conhecimento exigido pelo mercado de trabalho.
Enfim, com o intuito de que o filme “O extraordinário” venha a representar a transformação na vida escolar dos brasileiros, medidas são necessárias. A priori, urge que o Ministério Público Federal, em parceira com o Estado - cuja função é contribuir para a formação de cidadãos tolerantes - promover instituições com infraestruturas de ponta que ministrem o ensino técnico em conjunto com o ensino humano, ao debater obras literárias em grupos que propiciam a interação social. A posteriori, por meio de professores capacitados ofertados pelo Senai, as entidades educadoras formarão indivíduos com amplo acervo cultural a fim de que contribuam para o desenvolvimento da nação.