Ensino domiciliar em questão no Brasil
Enviada em 29/10/2019
O livro “Extraordinário”, de J. R. Palácio, conta a história de Auggie Pullman, um garoto que possui uma síndrome genética e, por isso, desenvolveu uma deformidade facial. Nesse contexto, em virtude de sua condição, o personagem recebeu o ensino oferecido pelos pais e, ao ser matriculado em uma escola regular, sofreu inúmeros desafios de adaptação em sociedade. Fora do ambiente literário, é evidente que o ensino domiciliar pode causar inúmeras barreiras aos praticantes e torna-se uma problemática brasileira contemporânea. Logo, entre os fatores que contribuem para solidificar esse quadro, destacam-se a negligência intelectual, bem como a privação do convívio social.
Em primeira análise, é indubitável que um dos maiores problemas relacionados à escolarização realizada -exclusivamente- no âmbito do lar é o abandono intelectual. Nessa perspectiva, a ausência de uma fiscalização eficiente e que assegure ao “homeschooling” a pedagogia e didática necessárias à formação de qualidade, contribui para que essa prática seja inviável na nação tupiniquim. Sob tal ótica, o “mito da caverna”, desenvolvido pelo filósofo Platão, busca explicar a condição de ignorância em que vivem os seres humanos e o que seria necessário para atingir o verdadeiro “mundo real”. Desse modo, assim como no contexto filosófico, o ensino domiciliar nem sempre é realizado por pessoas capacitadas e os estudantes podem ser prejudicados no viés intelectual e serem incapazes de ver o “mundo real”.
Concomitantemente, a escola é o espaço que proporciona maior interação, sociabilidade e, diferente do ensino domiciliar, boa parte da convivência com a pluralidade e conflitos são presenciados nela. De maneira análoga ao exposto, o filme Capitão Fantástico, dirigido por Matt Ross, retrata o cotidiano distópico de um pai que cria seus filhos longe da civilização e, quando eles saem o retiro, encaram o mundo com muita dificuldade, assim como o já mencionado Auggie. Semelhante ao ficcional, nota-se que a realidade é muito parecida e, tendo em vista o contato reduzido com o meio social, sentimentos de alteridades são pouco vivenciados e possíveis complexos de isolamento podem ser adquiridos.
Destarte, frente a provectos fatores didáticos e comunitários, a educação no âmbito doméstico é deficitária e precisa de ajustes. Portanto, o Ministério da Educação, como instância máxima dos aspectos administrativos do ensino, deve adotar estratégias no tocante à falha pedagógica que grande parte dos “homeschooling” possuem, a fim de estabelecer um ambiente acadêmico igualmente capaz de formar e preparar cidadãos ao convívio em sociedade. Essa ação pode ser feita por meio da regulamentação das maneiras em que esse ensino poderá ser praticado, além da maior fiscalização dessa prática. Ademais, é necessário que avaliações psicológicas sejam realizadas periodicamente nos estudantes domésticos e, em casos de isolamento social, ocorra a inserção ao ambiente tradicional.