Ensino domiciliar em questão no Brasil
Enviada em 02/04/2020
“O quarto de Jack” é um longa-metragem ficcional, o qual mostra um menino, Jack, que é mantido em um quarto, isolado do mundo, por sua mãe desde quando nascera. O filme evidencia as concepções de realidade do garoto, que são dissonantes do mundo real. Fora da ficção, a questão do ensino domiciliar hoje, no Brasil, assemelha-se ao contexto de Jack, o que é nefasto, na medida em que, devido à descrença popular na educação do país, essa modalidade de ensino promove indivíduos tolhidos no âmbito social.
Cabe ressaltar, em primeiro plano, que a desconfiança de alguns pais no processo educativo nacional é protagonista dentre as causas da problemática. Isso porquanto, muitas vezes, em razão de falsos estigmas frente ao Estado, famílias optam por passar os conhecimentos técnicos fundamentais diretamente, de forma a se afastar do Governo e de suas benesses. Evidência disso é o livro “Homo ludens”, de Johan Huizinga, no qual o autor explica a necessidade humana de se basear no fantasioso e de criar conspirações acerca de alguns aspectos da vida: a “natureza lúdica”, que ignora as verdades e, nesse viés, traduz-se na preferência pelo ensino domiciliar em detrimento do público.
Por conseguinte, enquanto essa conjuntura perdurar, a falta de confiança parental no sistema educacional brasileiro, que induz ao ensino domiciliar, culmina na formação de indivíduos socialmente reprimidos, o que confronta ideias de John Locke. Filósofo iluminista, ele preconiza a “tábula rasa”: o homem é, a priori, um “quadro em branco”, o qual se preenche mediante experiências. No entanto, se a educação domiciliar priva as pessoas do processo de socialização escolar, ou seja, da troca de relações interespecíficas, o “quadro em branco” dos novos cidadãos será similar ao de Jack. Destarte, a tendência será a consolidação de brasileiros repreendidos pela predominância do ensino tecnicista e pela escassez de vivências sociais, o que cria cidadãos isolados.
Portanto, infere-se que, visto a tempestividade da problemática, é necessário ponderar legalmente esse meio de ensino, de forma a evitar o cenário supracitado. Para tanto, compete ao Ministério da Educação, como instância educacional máxima do Governo, o dever de legalizar o ensino domiciliar apenas perante real necessidade, como impossibilidade geográfica de frequentar escolas, instituindo grupos de acompanhamento pedagógico nesses casos, por meio de políticas públicas, a fim de atenuar essa prática educacional no Brasil e de eliminar seus efeitos tortuosos. Somente assim, observar-se-ia uma nova geração socialmente integrada e que diverge dos preceitos de “O Quarto de Jack”.