Ensino domiciliar em questão no Brasil

Enviada em 14/12/2020

No filme “Capitão Fantástico”, de 2016, um pai cria seus filhos longe da civilização, isolado em uma floresta. No entanto, quando precisa deixar o isolamento e ir conviver na cidade, fica provado que seus filhos, mesmo sendo extremamente inteligentes, não sabem se comportar e lidar com situações sociais cotidianas. Esse exemplo revela que o ensino domiciliar, embora podendo promover uma educação de qualidade melhor do que as escolas sucateadas, não prepara para a vida em sociedade e suas dificuldades, e contribui para construir jovens com visão de mundo limitada a ideologia dos pais.

De início, é relevante salientar que, de acordo com o artigo 255º da Constituição Federal, a educação é direito de todos e deve ser viabilizada pelo Estado e pela família no intuito de preparar para o exercício da cidadania e trabalho. Assim sendo, no Brasil, além do Estado, agora a família quer ter direito pleno de educar seus filhos exclusivamente em casa, mas ainda não há uma legislação específica que permite isso. Tal método de educação tem seus pontos positivos, pois, de acordo com a Associação Nacional de Educação Domiciliar (ANED), há um melhor aprendizado em razão da flexibilidade de horários e planejamento individualizado de conteúdos, permitindo um ensino voltado para o aperfeiçoamento das dificuldades da criança, além de um estímulo a suas melhores habilidades.

Entretanto, a vida não se resume a ser inteligente e cheio de qualidades ligado a racionalidade, mas também a um convívio social e, para isso, o homeschooling não é suficientemente bom. Isso porque, segundo o consultor educacional Cesar Callegari, ao evitar a socialização do ambiente escolar, o estudante não entra em contato com uma diversidade de pessoas, estilos, convicções e religiões, e fica restrito aos princípios que os pais impuseram em casa. Desse modo, pode-se criar jovens intolerantes, com dificuldade de aceitar aquilo que foge do padrão estabelecido por seus tutores, além de não saberem lidar com conflitos, concorrências e pressões sociais. Em vista desse prejuízo social, ainda há aqueles que defendem o homeschoooling devido ao sucateamento do ensino público, que sofre com estruturas precárias, falta de materiais e docentes mal remunerados que se sentem desmotivados.

Infere-se, portanto, que a discussão sobre ensino domiciliar leva a diversas questões polêmicas e são necessárias medidas para solucionar o impasse. Para isso, é imprescindível que o Ministério da Educação pare de restringir verbas da educação ano após ano, e sim invista mais para melhorar a qualidade do ensino, para que os pais não cogitem porcurar uma educação domiciliar em detrimento das escolas tradicionais. Ao usar recursos corretamente, é possível criar uma instituição escolar com boa infraestrutura, materiais de qualidade e aulas dinâmicas e atrativas. Desse modo, o ensino domiciliar será uma rara opção perante um ensino público virtuoso que prepara para o mundo.