Entre a saúde e o preconceito: o problema da obesidade e do sobrepeso no Brasil

Enviada em 19/09/2019

Brás Cubas, o defunto-autor de Machado de Assis, diz em suas “Memórias Póstumas” que não teve filhos e não transmitiu a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. Talvez hoje ele percebesse acertada sua decisão: a postura de muitos brasileiros frente a intolerância à obesidade é uma das faces mais perversas de uma sociedade em desenvolvimento. Com isso, surge a problemática do preconceito contra pessoas obesas que persiste intrinsecamente ligado à realidade do país, seja pela retrógrada mentalidade social, seja pela negligência governamental.

É indubitável que a questão constitucional e sua aplicação estejam entre as causas do problema. Conforme Aristóteles, a poética deve ser utilizada de modo que, por meio da justiça, o equilíbrio seja alcançado na sociedade. De maneira análoga é possível perceber que, no Brasil, a perseguição às pessoas acima do peso rompe essa harmonia; haja vista que, embora esteja previsto na Constituição o princípio da isonomia, no qual todos devem ser tratados igualmente, muitos cidadãos se utilizam do problema de saúde que a obesidade acarreta para externar ofensas e excluir socialmente pessoas com sobrepeso.

Segundo o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística, 92% dos brasileiros já praticaram ou presenciaram algum ato de gordofobia, destacando esse preconceito como o principal impulsionador de problemas de autoestima. De acordo com Durkheim, o fato social é a maneira coletiva de agir e de pensar. Ao seguir essa linha de pensamento, observa-se que a preparação da gordofobia se encaixa na teoria do sociólogo, uma vez que se uma criança vive em uma família com esse comportamento, tende a adota-lo também por conta da vivência em grupo. Assim, a continuação desse pensamento de superioridade às pessoas com sobrepeso, transmitido de geração a geração, funciona como base forte dessa forma de preconceito, perpetuando o problema no Brasil.

Infere-se, portanto, que a intolerância à obesidade é um mal para a sociedade brasileira. Senso assim, cabe ao Governo Federal construir delegacias especializadas em crimes de ódio, a fim de atenuar a prática do preconceito na sociedade, além de aumentar a pena para quem o praticar. Ainda cabe à escola criar palestras sobre a importância de um alimento saudável, visando a informar crianças e jovens sobre os problemas de saúde que uma alimentação descontrolada pode acarretar, diminuindo, assim, pessoas com deficiência nutritiva quando adulto. Ademais, a sociedade deve se mobilizar em redes sociais, com o intuito de conscientizar a população que não existe um padrão corporal, aumentando assim a autoestima de pessoas fora do “padrão”. Assim, poder-se-á transformar o Brasil em um país desenvolvido socialmente, e criar um legado de que Brás Cubas pudesse se orgulhar.