Entre a saúde e o preconceito: o problema da obesidade e do sobrepeso no Brasil

Enviada em 19/10/2019

A definição da Organização Mundial da Saúde acerca da obesidade é o acúmulo de gordura corporal passível de causar danos à saúde do indivíduo; o sobrepeso, por outro lado, representa um sinal amarelo para o risco. O que ambas as condições têm em comum vai além da questão biológica, pois o corpo gordo se encontra rejeitado pelos valores socialmente impostos. Essa situação de preconceito se deve à perspectiva incompleta de que tão somente ao indivíduo pertence a responsabilidade (em outras palavras, a culpa) por sua situação quando, na verdade, a obesidade é um problema coletivo que, por isso demanda atenção por parte do Poder Público e da sociedade.

Conforme firmado pela Constituição Federal do Brasil de 1988 em seu artigo 6º, a saúde é um direito social. Todavia, esse pressuposto não está sendo cumprido, já que os índices de obesidade no país tem se mostrado alarmantes, com vertiginoso aumento de 110% entre os anos de 2007 e 2017, segundo o Ministério da Saúde, o que se traduz no adoecimento de um quinto da população de um país de proporções continentais. Assim, a primeira prova de que não é justo agir de forma a condenar um obeso por sua adiposidade é justamente a incidência da mesma no conjunto populacional brasileiro, o que não poderia acontecer no caso de suas causas serem tão simples quanto, por exemplo, um desleixo no controle do apetite ou preguiça.

Em segunda análise, destaca-se que o problema tratado não pode ser individualizado porque suas próprias causas são tanto biológicas quanto gerais da sociedade. De acordo com o médico Drauzio Varella, a obesidade é cercada de fatores genéticos, emocionais e metabólicos — e até microbiológicos, ao se considerar a tese defendida pela bióloga Alanna Collen no livro “10% humano”. Além disso, inegavelmente, a conjuntura social tem um efeito amplificador, visto que, ao longo da história, o ser humano se viu deixando de lado o esforço físico do trabalho por ambientes como escritórios e lojas, de forma que o sedentarismo se tornou mais comum — e com ele o excesso de gordura. Por fim, um tratamento adequado à questão perpassa pelo estímulo à movimentação do corpo.

Portanto, fica evidente que, embora não seja simples reverter o preconceito que permeia a sociedade e nem a sua biologia, é tanto possível quanto necessário que o Estado estimule alternativas ao sedentarismo a fim de conter a obesidade e os riscos a ela associados. Para isso, as prefeituras municipais devem coordenar grupos que envolvem as comunidades na realização de atividades físicas regulares, pelo menos três vezes por semana, na modalidade preferida de cada um, seja corrida, futebol, dança, etc. Com isso, o Estado cumpre seu dever constitucional com a saúde pública, enquanto os indivíduos se fortalecem por meio da cooperação e do apoio intracomunitário.