Entre a saúde e o preconceito: o problema da obesidade e do sobrepeso no Brasil

Enviada em 22/09/2019

O artista austríaco Erwin Wurm, em sua exposição “O Corpo é a Casa”, desvela por meio de suas esculturas a transformação da praticidade no acesso à comida em preocupação com os frequentes casos de distúrbios alimentares. Assim como retratado pelo escultor, o Brasil vivencia um período de consumo excessivo de alimentos e consequente aumento dos índices de obesidade, o que traz à tona o panorama atual de estigmatização de pessoas acima da massa corpórea ideal. Com efeito, tal cenário se dispõe entre a saúde e o preconceito à medida que é afetado pela ineficácia operacional do Estado e pelas imposições sociais do status quo.

Em uma primeira análise, é indubitavelmente clara a relação entre a incapacidade de gestão estatal e a não resolução de entraves ligados à obesidade e ao sobrepeso. Esse fato decorre da secundarização da pauta pelo Poder Público, haja vista o fisiologismo que conduz suas agendas político-econômicas, o que impede a atribuição de caráter prioritário à promoção de um estilo de vida mais saudável para a população. A realidade descrita ilustra com precisão aquilo que Nicolau Maquiavel, em “O Príncipe”, refletira acerca da necessidade de o governante conduzir suas decisões políticas com o propósito de perpetuar-se no poder. Dessa forma, os parcos investimentos na atenuação da demanda exagerada pela “fast-food” refletem um governo imerso na filosofia maquiavélica.

Ademais, em um segundo plano, o quadro de preconceito relacionado aos indivíduos com excesso de peso se alicerça na profunda parametrização quanto aos valores estéticos. Essa associação é possível mediante a atuação da mídia, que impõe à sociedade padrões de beleza e comportamento diariamente, os quais são veiculados por programas e propagandas que reforçam o estereótipo de belo como sinônimo de magro. Nessa perspectiva, o caráter coercitivo da padronização pode ser explicado por Pierre Bordieu, em “Violência Simbólica”, que aponta que o destoante é submetido a uma inferiorização, visto que não segue os critérios impostos pelo discurso dominante. Em vista disso, a normatização midiática do peso ideal fomenta a exclusão social de obesos no país.

A ineficiência governamental e a determinação de modelos de estética, portanto, agravam o problema da obesidade e do sobrepeso no Brasil. À vista disso,a fim de superar a gordofobia no corpo social,o Poder Executivo Federal deve desconstruir a discriminação de obesos nas escolas, por intermédio de dinâmicas que envolvam o tema, nas quais participem educadores e psicólogos treinados sobre a pauta. Somente a partir disso e da construção de um modelo de alimentação baseado na saúde,o caos corporal previsto por Erwin Wurm não será um cenário empírico para a nação.