Entre a saúde e o preconceito: o problema da obesidade e do sobrepeso no Brasil

Enviada em 09/10/2019

O livro ‘‘Pare de se odiar’’, escrito pela ‘‘youtuber’’ Alexandra Gurgel, aborda sobre a necessidade de aceitação de diversos tipos de corpos, como um ato revolucionário. Além disso, há discussões sobre gordofobia, obesidade enquanto doença, machismo e o corpo como um produto da indústria cultural. Esse livro fez sucesso em determinados setores da sociedade, devido à persistência da ditadura da beleza e dificuldade de aceitação da diversidade corporal no Brasil. Nesse sentido, a obesidade pode ser entendida como: problema de saúde pública e problema social.

A priori, a obesidade é um problema de saúde. Verifica-se isso porque há desregulação hormonal e metabólica, com influência de estresse oxidativo (presença de radicais livres em excesso que favorecem a ocorrência de doenças) e um componente inflamatório nos adipócitos (células especializadas no armazenamento de gorduras). Assim, a obesidade deve ser tratada de forma sistemática e especializada por equipes de saúde. Contudo, existe uma concentração de procedimentos médicos relacionados ao tratamento da obesidade nos grandes centros e capitais brasileiras. Tal concentração está em desacordo com a proposta do Sistema Único de Saúde (SUS), idealizada, principalmente, pelo professor Sérgio Arouca, na qual esse sistema deve ser descentralizado, integrado, universal e capaz de atender cada pessoa como um todo, ou seja, respeitando o princípio da integralidade.

A posteriori, a obesidade é um problema social, agravado pela gordofobia. Nesse sentido, essa doença pode dificultar o trabalho, porque ainda há uma padronização ‘‘invisível’’ quanto ao ideal de beleza a ser selecionado; a  mobilidade, porque, em geral, os transportes coletivos, como ônibus e metrô, não estão adaptados para esse público.  Assim, ser gordo, no Brasil, ainda dificulta várias relações sociais inerentes à condição de ser cidadão. Nesse sentido, a gordofobia pode ser relacionada a uma consequência do que o filósofo Michel Foucault debateu sobre ‘‘docilização dos corpos’’, ou seja, a padronização de formas de corpos e comportamentos tidos como aceitáveis socialmente.

É importante, portanto, que o Ministério da Saúde crie uma comissão permanente, em cada estado, responsável pela descentralização de cuidados de saúde para pessoas obesas, formada por médicos, enfermeiros, professor de educação física e agentes de saúde, por meio de concursos públicos, para que haja estrutura para cuidados padronizados em diversas cidades. Além disso, empresas, por meio de institutos sociais, como o Visa Causas, podem capacitar e contratar pessoas obesas para ocupar diversos cargos, para que aumente a empregabilidade direcionada a esse grupo. Assim, o livro ‘‘Pare de se odiar’’ pode ser apenas uma ficção.