Entre a saúde e o preconceito: o problema da obesidade e do sobrepeso no Brasil

Enviada em 10/05/2020

No filme americano “Tá Chovendo Hambúrguer”, Flint é um jovem cientista que cria uma máquina capaz de produzir alimentos que caem do céu. No decorrer da trama, ele perde o controle de sua invenção, ao produzir comidas fora de escala que engordam os habitantes de Boca Grande. Fora da ficção, o Brasil culmina para tal cenário análogo, uma vez que a obesidade perfaz a realidade brasileira, na medida em que não só há um preconceito cristalizado quanto ao sobrepeso, mas também esse propicia danos à saúde pública. Convém, portanto, analisar de forma crítica essa problemática.

Em primeiro aspecto, segundo o poeta Ramón de Campoamor, “a beleza está nos olhos de quem a vê”. Entretanto, é perceptível, na hodiernidade, uma panorama contrário à análise de Campoamor, visto que se intitulou na sociedade um definido padrão de beleza, isto é, aqueles cujos corpos destoam da magreza são condenados e menosprezados. Nesse contexto, observa-se que as pessoas gordas encontram empecilhos, majoritariamente, no âmbito laboral, já que devido à intolerância aos corpos fora do padrão, cria-se uma seletividade para a escolha dos candidatos. De acordo com a perspectiva do sociólogo francês Pierre Bordieu há, na contemporaneidade, uma violência simbólica, ou seja, não é preciso haver uma coação física para que haja danos psíquicos, o que representa o preconceito que existe contra os indivíduos obesos na sociedade.

Paralelo a isso, embora seja dever da Constituição Cidadã de 1988 garantir a todos uma alimentação de qualidade perante à lei, na prática, tal isonomia não é concretizada. Sob essa ótica, nota-se que a vida moderna impossibilita a prática constante de exercícios físicos ou de uma alimentação melhor e, por conseguinte, as indústrias alimentícias aproveitam dessa situação para obter, cada vez mais, lucros maiores com a venda de comidas tóxicas. Essas, por sua vez, acentuam o desenvolvimento de doenças como diabetes e hipertensão, as quais diminuem a expectativa de vida dos cidadãos, além de os deixarem dependentes de medicamentos. Visto isso, conforme a revista “Veja”, a maior causa de morte no Brasil, em 2019, foi em razão de doenças cardiovasculares, as quais são desencadeadas em virtude da má ingestão de alimentos.

Enfim, com o intuito de que o filme “Tá Chovendo Hambúrguer” deixe de representar a realidade brasileira, medidas são necessárias. A priori, urge que o Ministério da Educação, em sincronia com as escolas - cuja função é atuar como base educacional - insira, na grade curricular escolar, uma disciplina que se destine à educação alimentar e à diversidade fenotípica. A posteriori, isso só será possível por meio de debates que serão embasados em videoaulas disponibilizadas, especialmente no Youtube, a fim de que a gordofobia seja erradicada e forme-se cidadãos com hábitos alimentares saudáveis.