Entre a saúde e o preconceito: o problema da obesidade e do sobrepeso no Brasil

Enviada em 07/01/2021

Na obra cinematográfica “O professor aloprado”, da década de 1990, é retratado o dilema de um professor acima do peso que sofre com o preconceito e a baixa autoestima, o que prejudica até mesmo suas relações com as outras pessoas. Análogo a isso, no Brasil, a associação entre bem-estar físico e magreza exclui da normalidade pessoas com sobrepeso, camuflando uma eugenia no discurso sobre vida saudável. Assim sendo, a falta de representatividade positiva de pessoas obesas e a exaltação de um copo magro feita pela mídia e redes sociais contribui para a marginalização e o cancelamento social dessa parcela da sociedade.

Em primeiro plano, na primeira metade do século XX, o filósofo Sigmund Freud escreveu sobre a função social das piadas, as quais servem não apenas para o divertimento, mas também para a sustentação velada de um ponto de vista. Sendo assim, comumente associados ao negativo e às aberrações sociais, nas piadas sobre gordos é muito frequente colocar essa parcela da população em posições rejeitadas. Desse modo, a estigmatização da obesidade contribui para a manutenção do preconceito e muitas vezes implanta culpa naqueles que sofrem com esse problema, o que corrobora para a exclusão e afastamento desses indivíduos, prejudicando a sua formação e engajamento social.

Sob o mesmo prisma, em 2016 o crítico de cinema americano Rex Reed fez uma resenha sobre o filme “Uma ladra sem limites” e, no entanto, acabou por destilar palavras depreciativas contra a atriz protagonista por ela estar acima do peso, justificando o seu posicionamento com a frase “Eu estava alertando sobre o perigo da obesidade”. Com isso, a aversão ao gordo, dissimulada em preocupação com a saúde, ganha força e soma-se ao estereótipo propagado pelos filmes e séries em que obesos são retratados como pessoas sem autocontrole. Dessa forma, a falta de informação sobre os problemas metabólicos que levam à obesidade contribui ainda mais para o “cancelamento” social – prática comum nas redes sociais quando alguém faz ou fala algo errado ou imoral – desses indivíduos e o estabelecimento de uma repulsa contra pessoas com obesidade, o que traz problemas para o bem-estar social dessa população. Dessarte, medidas para conter tal dilema são de extrema necessidade.

À vista disso, o poder público deve investir em campanhas publicitárias nas redes sociais e de televisão, por meio da utilização de atores e atrizes gordos, os quais vão informar acerca das consequências danosas que o preconceito causa no psicológico e na formação da personalidade deles, a fim de diminuir a incidência de atos preconceituosos. Além de darem informações acerca dos problemas no metabolismo que levam à obesidade, visando tirar o estereótipo de pessoas sem autocontrole que, infelizmente, ainda é mantido em diversas estruturas da sociedade.