Epidemias contemporâneas e seus desafios relacionados à histeria coletiva
Enviada em 05/04/2020
“A única coisa que resta é ir para casa e tocar um tango argentino”. Nesse trecho do poema “Pneumotóraxis”, Manuel Bandeira aborda a inexistência de tratamento para tuberculose durante sua epidemia no século XX. Diferentemente daquela época, hoje existem melhores recursos tecnológicos capazes de enfrentar novas doenças. Todavia, a histeria coletiva é empecilho nesse combate, pois gera o desafio de manter o pacto social e de não se criar “mitos” acerca da epidemia.
De início, o primeiro desafio advindo da histeria coletiva nas epidemias atuais é conservar a solidariedade. Isso ocorre porque a sensação de “guerra” fomenta condutas individualistas como estocar exageradamente itens básicos em detrimento de consumir o necessário para que não falte ao próximo. Por conseguinte a esse pânico, o enfrentamento da epidemia é prejudicado, pois necessitaria de uma sociedade consciente de que cada pessoa sem acesso à alimentação e higienização adequadas é um risco à saúde de todos. Exemplo dessa quebra do pacto social é que após pronunciamento de estudos - ainda não comprovados - do uso de hidroxicloroquina contra o COVID-19, houve falta do medicamento nas farmácias para tratamento de lúpus e hipertensão devido a compra desenfreada por quem não precisava, como relata Portal G1. Tal situação deixa claro o prejuízo da histeria coletiva, logo, a consciência social de cada um é de extrema importância nesses momentos.
Em segundo lugar, outro desafio relacionado ao pânico social nas epidemias é o surgimento de “mitos” acerca da doença. Essa realidade é narrada no documentário “Cartas para além do muro”, o qual mostra as mídias e a população, erroneamente, cunhando o HIV como “vírus gay”, situação a qual suscitou preconceito e desinformação. Essa forma de histeria coletiva ainda persiste na atualidade e é acentuada pela velocidade de disseminação de textos pelas redes sociais. Tal persistência emerge do incipiente senso crítico abalado pela epidemia, isto é, muitas vezes, o brasileiro, devido à pouca formação leitora, propaga notícias falsas com potente poder de prejudicar comportamentos adequados de outrem. Logo, é essencial que a sociedade saiba escolher fontes confiáveis nas atuais epidemias.
Em suma, diante dos desafios gerados pela histeria coletiva nas epidemias, é fundamental que ONGs juntamente ao Governo façam campanhas por meio de conteúdo digital e SMS indicando, em cada cidade, locais de arrecadação de alimentos e itens básicos nos mercados e farmácias, bem como a importância de comprar apenas o necessário e doar aos vulneráveis, isso a fim de fortalecer a solidariedade. Somado a isso, os centros educativos junto às famílias devem formar, desde cedo, cidadãos aptos a ler o mundo de modo crítico intermédio de leitura constante atrelada a debates de textos e livros, objetivando a não propagação de notícias falsas principalmente em períodos críticos.