Epidemias contemporâneas e seus desafios relacionados à histeria coletiva

Enviada em 10/04/2020

No clássico literário “Decamerão”, composto pelo escritor Giovanni Boccaccio, dez jovens se sentiram coagidos a se isolarem socialmente devido ao medo imperante no contexto da Peste negra. Tais indivíduos, tomados pela histeria coletiva, recorreram aos meios extremistas de combate à calamidade. Embora essa obra seja antiga, percebe-se que o fenômeno da perturbação em massa, relacionada às epidemias mundiais, está presente desde os tempos medievais, por isso, vale discutir o fator psicológico e a propagação midiática como os desafios relativos a tal problemática.

Primeiramente, cabe discutir sobre o conceito de psicologia das massas para entender o processo de histeria coletiva das epidemias. Nesse sentido, a Teoria da Norma Emergente, categorizada pelo estudo psicológico moderno, afirma que o comportamento não-tradicional associado ao comportamento das multidões está relacionado com a emergência de novas formas comportamentais em resposta a crises que surgem no mundo globalizado. A partir disso, nota-se que, com o surgimento das pestilências na atualidade, os agrupamentos sociais se tornam mais propensos a estimularem um novo comportamento, que muitas vezes, infelizmente, é histérico e irracional. Prova disso, depois de uma semana da divulgação do covid-19 como uma nova pandemia, pela Organização mundial da saúde, o Índice de mercado da Bolsa de Valores (Ibovespa) registrou um tombo de 39% nas ações mercadológicas, que constituiu a maior queda em toda a história desse indicador.

Ademais, vale analisar a difusão das informações midiáticas nesse contexto.  Nesse ínterim, o escritor Lima Barreto, por meio da obra “Recordações do escrivão Isaías Caminha”, afirma que as divulgações jornalistícas, sem o propósito de informar a população sobre seus direitos e deveres, fazem parte de um “engenhoso aparelho de ilusões”. Com base nesse viés, é perceptível que, apesar de tal obra ter sido composta na realidade brasileira do século XX, os meios de comunicação, nos dias atuais, cumprem esse mesmo papel subversivo exposto na crítica barretiana. A exemplo dessa triste função, realizada por aplicativos como “Twitter” ou “Instagram”, o tabloide inglês “The sun”, divulgação uma informação falsa de que “a sopa de morcego causa o covid-19”, ilógica afirmação que foi bastante divulgada.

Nota-se, portanto, a urgência em criar meios para resolver tais impasses. Para tanto, urge que o Ministério da Saúde, por meio da contratação de médicos, psicólogos e publicitários, crie uma campanha de divulgação dos métodos preventivos nas epidemias, a fim de não dar margens à informações histéricas. Além disso, o Ministério da Cidadania deve criar um planejamento intitulado de “Imprensa cidadã”, por intermédio de 30% das verbas, que reúna os empresários da mídia mundial a fim de que, diferentemente do século XX, a propaganda midiática não seja um instrumento de “ilusões”.