Epidemias contemporâneas e seus desafios relacionados à histeria coletiva
Enviada em 09/04/2020
Na obra, “Capitães de Areia” do Romantismo, Jorge Amado já denunciava a frágil questão da saúde pública ao relatar a epidemia de varíola acompanhada pela desordem social, que modificou a condição de todo o grupo dos meninos de rua. Saindo do universo literário e analisando o atual contexto da saúde brasileira, é possível observar a persistência de epidemias atreladas á histeria coletiva. Por colocar em risco a dignidade da sociedade, é preciso entender o motivo da existência dessas epidemias na atualidade e porque acontece a histeria coletiva.
É fundamental, em primeira análise, observar como um dos fatores para a ocorrência das epidemias contemporâneas a falta de saneamento básico no país. Apesar de já existir há mais de dez anos a Lei de Saneamento Básico, segundo a Agência Nacional de Águas, devido a falta de investimento na área 45% do esgoto brasileiro não é tratado, o que deixa a população mais vulnerável às epidemias. Isso porque a má deposição de dejetos resulta na decomposição da matéria orgânica, que cria um ambiente perfeito para a proliferação de bactérias causadoras de doenças, como a cólera que é transmitida pela ingestão de água ou alimento contaminado.
Além disso, atrelado a esse cenário de desordem sanitária, tem-se ainda o impacto das “Fake News” na concretização da histeria coletiva a respeito das epidemias. Tal questão acontece porque, em busca de maior visibilidade e retorno financeiro, algumas plataformas de comunicação publicam notícias falsas carregadas de uma linguagem exagerada para chamar atenção do público. Em virtude disso o clima de insegurança norteia ás práticas da sociedade, quem tem como fim último o próprio eu, caráter egoísta já denunciado pelo filósofo francês, Bauman na sua obra “Cegueira Moral”. Nesse contexto de histeria coletiva, cenas de esgotamento de alimentos e brigas em supermercados se tornam comuns, colocando em risco a ética da sociedade.
Nota-se, portanto, que a questão das epidemias contemporâneas esta completamente interligada com o problema do saneamento básico e a proliferação das “Fake News”. Portanto, é preciso de início que o poder executivo destine mais verba para essa área publica, para que seja possível o desenvolvimento das obras do saneamento básico pelos Municípios. Além disso, é importante que o Ministério Público em parceria com o Ministério da Saúde desenvolvam um mecanismo de combate às “Fake News”, como a criação de um aplicativo gratuito no qual a população poderá se informar a respeito das formas de contagio e profilaxia das doenças epidêmicas do país. Assim, o cenário de desordem social relacionado à epidemia, igual aquele relatado por Jorge Amado, não fará parte do futuro da literatura brasileira e a dignidade social será mantida.