Epidemias contemporâneas e seus desafios relacionados à histeria coletiva

Enviada em 06/04/2020

No filme “Contágio”, o diretor Steve Soderbergh retrata o pânico da população mediante a disseminação de um vírus desconhecido. Fora dos tablados da ficção, a ocorrência de epidemias na sociedade hodierna demonstra que a histeria coletiva, representada na obra, tem sua raíz na realidade. Nesse sentido, combater tais enfermidades significa, também, enfrentar a fobia generalizada que elas ocasionam, o que, atualmente, está atrelado a fatores como a desinformação e a exploração midiática.

A princípio, observa-se que o desconhecimento de informações científicas fidedignas sobre o tema é a base para o medo disseminado. Quanto a isso, o psicanalista Christian Dunker afirma que a sociedade encontra na pestilência uma forma de materializar seus receios. No caso dos surtos epidêmicos atuais, a falta de acesso a dados seguros sobre formas de contágio e prevenção dá vazão a medos primitivos e irracionais, baseados apenas no senso comum. Tal fato é a gênese para comportamentos xenofóbicos como os praticados contra os judeus durante a peste negra, pois, uma vez à margem dos conhecimentos racionais, os indivíduos sentem a necessidade de elencar culpados.

Paralelamente, é importante considerar que a histeria coletiva também é produto do sensacionalismo midiático na abordagem ao tema. Para o filósofo Chomsky, a mídia é capaz de fomentar opiniões e comportamentos na sociedade. Nesse sentido, ao explorar exaustivamente as possíveis consequências sociais das epidemias - como o desabastecimento de alimentos, por exemplo - baseando-se apenas em previsões, os indivíduos são impelidos a adotarem atitudes individualistas, motivadas pelo pânico. Um exemplo disso é a escassez de insumos de proteção individual nas farmácias brasileiras após intensa procura durante a recente epidemia do novo coronavírus.

Percebe-se, portanto, que a histeria coletiva durante as epidemias contemporâneas é uma problemática latente. Assim, em situações epidêmicas, cabe ao Ministério da Saúde democratizar o acesso a informações científicas sobre a patologia em questão. Isso pode ser realizado mediante campanhas em rádios, redes sociais e televisão, nas quais um especialista fornece informações, em linguagem de fácil entendimento, sobre formas de prevenção e tratamento. A despeito das atitudes individualistas estimuladas pelos meios de comunicação, as secretarias estaduais e municipais de saúde devem realizar parcerias com veículos televisivos e de internet para incentivar ações que promovam o bem comum. Isso pode ser realizado por meio de campanhas de doação de materiais de proteção para hospitais que tratem sujeitos acometidos pela epidemia. Espera-se, com isso, que a histeria coletiva nas epidemias se limite apenas às produções cinematográficas.