Epidemias contemporâneas e seus desafios relacionados à histeria coletiva
Enviada em 11/04/2020
Em 1904, o presidente Rodrigues Alves e o médico Oswald Cruz iniciaram, na cidade do Rio de Janeiro, inúmeros projetos de saneamento básico e reformas, com a finalidade de melhorar a saúde da população e a erradicação de doenças, como a varíola e a febre amarela. Conquanto, por falta de diálogo dos governantes e a escassez de informações, os cidadãos revoltaram-se contra a vacinação obrigatória, acarretando problemas sociais e histerias coletivas. Fora do período histórico, é fato que a realidade da época pode ser relacionada ao contexto de epidemias contemporâneas, haja vista a desinformação, bem como a anomia social. Nessa perspectiva, esses desafios devem ser superados para que uma sociedade integrada seja alcançada.
Em primeiro lugar, para entender a complexidade do estigma, é fundamental compreender a desinformação vivenciada no Brasil. De acordo com o escritor inglês Charles Caleb, a má informação e a discriminação de notícias falsas tornam-se mais desesperador que a não-informação. Diante do exposto, é essencial analisar a relação de divulgação de informações errôneas e a proliferação de histerias coletivas na sociedade, visto que essas atitudes corroboram para uma sociedade inculta e inconsciente às externalidades da real situação, alavancando os desafios relacionados à histeria coletiva. Dessa maneira, é um equívoco não considerar a imperativa ação para mitigar esse estorvo.
Faz-se mister - ainda - salientar a desordem social como impulsionadora e agravante ao problema. Segundo o sociólogo francês Émile Durkheim, as intensas transformações ocorrentes no mundo social moderno, provocam a falta de objetivos e regras, além da perda de identidade.Diante de tal contexto, a sociedade contemporânea - marcada por essa anomia social - tende, em situações epidêmicas e histericas, romper com o sentimento de estabilidade social e prevalecer a sensação de “estar à deriva”, acarretando a insustentabilidade e a não manutenção do combate à epidemia, como apresentado na revolta de 1904.
Portanto, indubitavelmente, providências são necessárias para resolver esse impasse. Desse modo, urge que o Ministério da Saúde crie, por meio de verbas governamentais, campanhas publicitárias nas redes sociais que detalhem as medidas preventivas e as ações pertinentes ao combate de epidemias, com o intuito de informar, a sociedade e garantir a supressão de possíveis histerias coletivas. Ademais, cabe também a mídia, como mecanismo de persuasão, promover, por intermédio de propagandas e projetos de divulgação, a disseminação verossímil de notícias e a manutenção da difusão de mensagens, a fim de combater o quadro em questão. A partir dessas ações, atenuar-se-á, em médio e longo prazo, o impacto nocivo da desordem social em tempos de epidemia, além de alcançar o estágio oposto ao evento de 1904.